Acho que foi quando a gauchada chegou de supetão numa madrugada fria de 32. Não sei, não sei..., essa cabeça, de tão usada, falha mais que freio de carro velho. Huum! Foi nesse ano sim. Porque me lembro da tarde que o Carlo Dioguardi e o Homero espreitavam o tiroteio, que não aconteceu, no Itararé. Gaúcho na barranca de cá e paulista na de lá.
Nem um tirinho! E o Homero: ''Ô Dioguardi má que mandolini gostoso heim??'' ''Mas Homero, isso aí não é amendoim, é pinhão paraguaio. Laxante como rícino''. E o italiano: ''Dio mio!!''
Foi por esses dias também, que a Adélia Vacario revelou seu sonho ao pai e à mãe. ''É mais que sonho, pai. É aviso!''. Aqueles tempos eram assim. À noite era o medo, os sonhos ruins, acordar num pulo. De dia, a espera da guerra, os tiros e sangrar os bois para a refeição da tropa. E gaúcho por todo canto, de mosquetão, bota e bombacha esperando os paulistas que nunca viriam. E a Adélia chorando pelos cantos implorando: ''Pai, vai embora daqui''. Ela via a desgraça.
O pai, primeiro assustou-se. Depois, descrente, enraiveceu. ''Menina das tontas, acreditando em sonhos.'' Adélia não dormia mais. Nem o Homero dormiu naquela noite, que o pinhão revelou suas terríveis propriedades. Durante a noite toda ele lançou, trovejou e amanheceu murcho como laranja que caiu do pé. Assustou a tropa inteira acampada ali perto. Logo o Homero que morria de medo deles. Mais ainda do tenente que, uns dias antes, entregou o fordinho bigode com o motor fervendo, esfumaçando a rua. ''Arruma!''. ''Mas io sono ferrero, non mecánico''. O olhar duro: ''Não interessa. Arruma!''.
O Homero molhou o avental de couro de tanto chorar. Mas não adiantava, porque eles faziam o que queriam. Só na fazenda dos primos do Carlo requisitaram cinco bois gordos. Pagamento? Só um uns rabiscos para receber depois da ''revolução''. E a Maria, com mão na cintura enfrentando o tenente ''Não cabe mais ninguém aqui, nem para comer nem para dormir.'' O tenente baixou os olhos. De tarde tirou de lá cinco jagunços. E trouxe mais comida.
O velho Vacario jurava que arma dele ninguém tomava. ''Ninguém me tira o revólver. Nem gaúcho.'' Andava pelas ruas com o coldre à direita e o cabo preto bem à mostra. Era valente, com fama de quem olha para cara do medo e quem vai embora é o medo. Ele fica. Seco e duro. Jurado de morte? Antes dos primeiros sonhos da filha já tinha sido ameaçado mais de dez vezes. Porque tinha tanto inimigo? Porque ninguém vivia sem.
Quem não tinha, tratava de arranjar. A raiva quando vinha, tinha que achar caminho para escoar, senão empacava no peito e explodia o dono.
E o Vacario espalhava a dele sem dó. Teve aquele peão novinho lá da Colônia Mineira, que vinha feliz com a noiva na garupa da mula. O Vacario meteu o berro na cara do rapaz e mandou a moça passar para o cavalo dele. E rindo com os dentes arreganhados gritou. ''Quem tem mulher bonita não anda sem garrucha!'' Deixou a mocinha branca de susto logo lá na frente. Fez só por maldade na alma. Mas plantou ódio no peão, Ah! se plantou. Plantou esse ódio no João Português, comerciante de duas portas, no fim da rua, já quase na estrada.
''Ô seu Vacário, espera mais quinze dias que eu pago a conta, com os juros tim tim por tim tim. Tive uns atrapalhos, mas sou homem de bem. Sabe como é. Tenho quatro filhos pequenos...''. ''Não interessa! Para fazer você não me chamou. Agora dinheiro meu não vai criar filho de ninguém!'' Era assim o Vacario.
A única coisa no mundo que amolecia a carne daquele coração era a filha. Cuidava dela e ela dele com jeito de dois passarinhos. Era só delicadeza e nhem, nhem, nhem. Não tinha palavra para machucar. A Adélia sabia da natureza do pai, mas tinha com ela que filha existe para perdoar. Às vezes dava lá uns conselhos que nem entrava nos ouvidos do Vacario. E pedia a Deus que derramasse um pouco de bondade naquele pai, que lançasse luz naquela alma. Mas aflição só crescia. Tinha a esperança que os sonhos que chegaram com as tropas também se fossem quando partissem.
Por fim, os gaúchos encilharam os cavalos, guardaram os mosquetões e se foram rumo ao sul. Deixaram para trás o estrume e o cheiro de cocheira que empestou a cidade. À noite teve festa com rojão, banda de música e baile.
O pai foi. Ela bem que tinha pedido: ''Não vai pai, que lá você não tem para onde correr''. ''Nunca precisei correr na vida e não vai ser dessa vez. Sempre tive inimigos. Eles que corram''. E a filha aflita,
esperando em casa, chorando. Ouviu os tiros, o som como que explodiu no seu peito.
Ninguém teve coragem de contar para ela. Mas foi no balcão do bar. O Vacario, seguro de si deu as costas para porta. O peão meio moleque, da noiva roubada, com a arma ainda quente gritou para o corpo no chão: ''Segui teu conselho. Perdi a noiva, mas comprei uma garrucha. Taí teu presente diabo velho!!''

MARCO FABIANI é cardiologista em Londrina e autor de dois livros ''Trilhas de Fogo'' e ''Contos de Pau e Pedra''

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