Às vezes penso se essa comodidade virtual de manter amigos e encontrar as pessoas é mesmo boa. Existem pessoas que devem ser esquecidas ou, simplesmente, deixar que o acaso nos reencontre.
Veja só que triste, manter um contato, não humano, com alguém que não vê há 10 anos e que, provavelmente, não verá mais. Seria bem mais interessante, saber dessa pessoa de 5 em 5 anos apenas como uma sutil lembrança. Exemplo:
Você está num bar com os amigos e pergunta:
- ''Vocês lembram do Francisco que largou o primeiro ano de graduação para viajar pela Europa de mochila?''
Aí alguém responde:
- ''Cara, encontrei o Francisco no ônibus outro dia, virou funcionário público''.
Ou:
- ''Encontrei o Francisco numa viagem à Tailândia, casou com uma nativa e teve 8 filhos, faz comida tailandesa e vive numa pequena casa num bairro afastado do centro''.
Ou:
- ''Francisco? Não lembro dele não ...''
E você tem dúvidas se o Francisco realmente existiu algum dia, ou se isso foi criação da sua mente perturbada da época da graduação.
Enfim, dúvidas e imaginação nascem do esquecimento. Você, às vezes, até cria histórias para as pessoas que nunca mais encontrou: um final exótico, realista ou alimenta a idéia de que essa pessoa ainda esteja de mochila pela Europa, conhecendo um mundo que você gostaria de ter conhecido naquela época, vive-se a história das pessoas desaparecidas: os caminhos que tomaram, se casaram, se escreveram um livro, se tiveram filhos, se estão bem fisicamente, se ainda são socialistas e se ainda ouvem rock.
E até começa a pensar se um dia, um dia qualquer como hoje, elas se lembrem de você, se perguntando: onde você está, se ainda pinta os cabelos de vermelho, se ainda ouve rock, se ainda lê os clássicos, se teve filhos, se ainda está com aquela pessoa ou se está viajando pelo mundo, vendendo artesanato e cantando Caetano Veloso nas horas vagas. A sua lembrança torna-se criação de uma história que talvez você nunca tenha vivido, mesmo que você não esteja vendendo artesanato e cantando Veloso (mesmo porque nunca gostei muito dele a esse ponto).
Por falar nisso, lembrei! Manda notícias Francisco!

DANIELA CASONI MOSCATO é professora de História na rede pública de ensino e também de escolas particulares de Londrina

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