Não há explicação provável para a magia contida nos livros. O que nos aproxima de determinadas obras, com ávido interesse, não se trata de algo apenas passageiro. Os livros, com suas invisíveis armadilhas nos arrastam para um imenso deserto. Este é o espaço inicial que vai determinar nossa tranquila ou turbulenta viagem. Uma contradição? Obviamente que sim, pois coisas inesperadas podem nos surpreender, arrancando-nos de nossa macia comodidade.
Lembro-me que em minha infância pobre, não tive contato com muitos livros. Em minha casa não havia uma biblioteca, mas apenas um livro. Para mim algo inatingível. Pertencia a minha mãe e ficava no armário da sala. Capa vermelha e escrita em letras douradas palavras incompreensíveis: ''A Relíquia'', abaixo um nome: ''Eça de Queirós''. Por muito tempo esta imagem povoou os meus sentidos, mas nunca ousei aproximar-me daquele objeto e pelo menos folheá-lo pela curiosidade comum às crianças. Aquela palavra com letras douradas continha certa arrogância e se impunha como algo definitivamente proibido.
Mas enquanto o livro de minha mãe permanecia soberano muito acima de minha cabeça, encontrei na escola outros livros que pude explorar. Aos oito anos ganhei de minha cunhada um de presente. Deste tinha certo receio pelo seu título ''A Fada Flor de Lótus''. Mas era um receio gostoso, ou uma sensação gratificante de que finalmente poderia adentrar aquelas páginas e nelas permanecer quanto tempo quisesse, pois o livro era meu. Tratava-se de algumas histórias retiradas do clássico ''As Mil e uma Noites''. Assim, devidamente apresentada a Sherazade, a mais corajosa contadora de histórias de que já ouvi falar, conclui que, além do livro ganhei também um tapete mágico.
Mas, felizmente percebi que os mistérios que supunha existirem, não estavam ainda esclarecidos. Havia muito mais. O caminho que descobri de forma tão espontânea e inconsciente, apenas havia começado. Dependia que eu o construísse. E assim foi. Cada leitura, cada página virada me deparei com: decepções, intrigas, tragédias, risos, certezas, alegrias, lágrimas e outros sentimentos difíceis de nomear que me levavam a outras estradas, oceanos e rios.
Ao descrever estes momentos lembro-me de Ítalo Calvino, em seu livro ''Se um viajante numa noite de inverno'', em que expõe toda fragilidade do leitor ao entrar em uma livraria e se envolve completamente com o que está lendo, transformando-se em personagem e, sobre este diz: ''O livro é que desperta a sua curiosidade; pensando bem, você até prefere que seja assim, deparar com algo que ainda não sabe bem o que é''.
Ocorrem-me também personagens gloriosos como Ulisses, um grande inventor de astúcias. E, claro, Dom Quixote, personagem genial e carismático que enlouqueceu com suas leituras, mas que delas inventou outras histórias, criando, pelas mãos de Cervantes e, de forma inusitada, recursos que puderam dialogar com os leitores e que até hoje causam espanto e admiração.
Quanto aos mistérios da capa vermelha, suspensos em minha infância, acredito que ainda não estejam revelados, apesar da leitura deliciosa de ''A Relíquia'', isto porque permanece em minha imaginação aquele livro em especial e seu intocável e instigante conteúdo.

MARIA HELENA DE MOURA ARIAS é jornalista e mestre em Letras

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