CRÔNICAS - Lanche indigesto
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quarta-feira, 05 de dezembro de 2007
José Luiz dos Santos 
Já passavam das três horas da tarde, eu estava na rua e senti meu estômago doer de fome. Sem pensar muito, parei em frente a uma panificadora e pedi um café com pão e manteiga. Enquanto uma moça loira preparava meu lanche, reclamando da outra colega de trabalho que havia deixado a chapa suja, chegou uma menina de uns dez anos e pediu se tinha alguma sobra de comida. Disseram que não tinha e a menina então pediu um copo de água. Antes de dar a água, a moça começou a reclamar mais do que estava reclamando da colega de trabalho, dizendo que ''essa gente só serve para incomodar e atrapalhar o trabalho dos outros''.
Quando a menina recebeu o copo com água, percebi que sua boca sangrava. Aproximei-me da criança e perguntei o que havia acontecido. Ela respondeu que tinha quebrado um dente que estava cariado e que a água ajudaria a passar a dor. Diante da situação, perdi completamente a fome. Disse para a moça da panificadora que podia dar o lanche para a menina, mas ela reclamou antes de atender meu pedido. ''Você não sabe o que está fazendo. Acostume mal esta gente e vai ver o que acontece, eles não param de te incomodar''. Acho que não olhei para ela com a cara muito boa, pois em seguida atendeu meu pedido sem resmungar.
Saí da panificadora com uma dor ainda mais forte no estômago, mas daquela vez, a dor era de nervosismo e de inconformismo pela situação.
A menina ficou sentada no meio-fio comendo o pão com manteiga e bebendo o café. Eu continuei pela rua. Durante o percurso que fiz até meu local de trabalho, fui refletindo sobre o episódio que acabara de presenciar e de participar. Constatei mais uma vez, que infelizmente valemos só pelo que possuímos e isto embrulhou meu estômago e deu uma vontade enorme de vomitar.
E por falar em vômito, andei mais algumas quadras e me aproximei de uma praça malcuidada onde havia um aglomerado de pessoas. Ao chegar mais perto do grupo, vi que um candidato a vereador vomitava palavras para uma platéia que de tão embevecida com o que ele dizia, chegava a babar. Fiquei ali alguns instantes e o homem não parava de falar. Momentos depois, olhei para um dos lados e vi a menina que há pouco estava na panificadora. Ela chegou e se aproximou de um homem que estava junto das pessoas que ouviam o candidato. O homem baixinho e desdentado perguntou algo para a criança mas não se moveu do lugar. A menina respondeu e continuava a cuspir sangue.
Depois que o candidato terminou seu longo e nada aproveitável discurso, muitas pessoas se aglomeraram para cumprimentá-lo. A menina e o homem, que depois fiquei sabendo que era seu pai, também se dirigiram até o candidato. Depois de algumas conversas, e de receberem um abraço nada carinhoso do candidato, os dois se retiraram com as mãos cheias de propaganda.
Fui até o homem e perguntei se ele realmente acreditava no candidato que discursara e que lhe incumbiu da entrega das propagandas. Ele respondeu sem olhar nos meus olhos que aquele era o melhor jeito de garantir a comida daquela noite. ''Moço, tenho cinco filhos e vivo de catar papel. Tem dias que não como e choro calado quando meus filhos pedem algo que não posso dar. Não posso recusar trabalho, mas confesso para você que me sinto mal em fazer o que estou fazendo, porque sei que quando acabar a campanha, eu continuo o mesmo ninguém que sempre fui''.
Caminhei com o homem e a criança mais alguns instantes e fiquei sabendo que ele perdera o emprego na laminadora onde trabalhava porque não tinha estudo suficiente para operar as novas máquinas que a empresa comprou. Com lágrimas nos olhos, ele fitou-me e disse: ''Eu ando desesperado e perdi o respeito até da minha família. Para mim tanto faz roubar ou trabalhar para ladrão, nada tenho a perder mesmo''.
Quase chorei junto com o homem. Despedi-me dele e segui meu caminho refletindo sobre as porradas que a vida dá nas pessoas, principalmente nas pessoas mais fracas e ainda por cima impossibilitadas de qualquer movimento de defesa. Senti vergonha de mim mesmo por também ser um impotente perante as situações que acontecem bem em minha frente.
JOSÉ LUIZ DOS SANTOS é escritor em Guarapuava e tem três livros publicados ''Férias Interrompidas'', ''A Essência da Vida'' e ''A Correspondência''


