Definitivamente, os heróis não estão somente nos contos, lendas ou livros de história, nos filmes ou seriados. Todos podemos nos transformar num deles. É bastante difícil, mas com a prática a coisa vai ficando cada vez mais fácil.
E não estou falando de matar dragões, desmontar bombas ou resgatar vítimas num incêndio. Não, falo daquele heroísmo que é preciso para encarar todo dia chefe tirano, engarrafamento no trânsito, sala de espera em consultório, metrô lotado, contas, dor nas costas, orçamento apertado...
Lutar e suportar tudo isso sem se render não é algo que vai aparecer nos jornais ou na capa das revistas, é verdade, mas às vezes penso que este tipo de heroísmo tem mais mérito que o de um soldado numa guerra. As guerras acabam, porém, a luta diária de cada um de nós por sair adiante, por sustentar uma família, por melhorar o futuro e não se deixar abater pelas infindáveis dificuldades, burocracias, injustiças, o desinteresse e a mediocridade deveria ganhar uma medalha...
É que a gente acostuma tanto com esta rotina que acaba por não perceber tudo que ela exige da nossa força de vontade, nossa fé e coragem, nossa criatividade e persistência. Aturamos filas, salários baixos, preços altos, dores crônicas, esperas intermináveis, necessidade, aperto e doenças como se tal coisa.
Respiramos fundo, nos endireitamos e seguimos em frente, tentando sempre tirar o melhor proveito da situação, de sermos positivos, de encontrar uma saída. E se nos perguntam, respondemos que somos felizes. Aprendemos a nos divertir, a fazer festa na adversidade, a soltar pipas imaginando que levam os nossos sonhos para o alto, onde Deus fará com que se tornem realidade. Somos heroicos no trabalho, na rua, entre as quatro paredes da nossa casa, quando ninguém nos vê. Somos quando gastamos o nosso dinheiro, quando começamos um negócio, quando temos um filho.
Não precisamos da fama, o poder ou o prestígio para sê-lo. Somos heroicos porque é preciso, porque queremos chegar a algum lugar, sermos alguém, deixar um legado... E não percebemos que a melhor história que podemos escrever, a mais valiosa herança que podemos deixar é, precisamente, este nosso heroísmo quotidiano.

Paz Aldunate é professora, escritora e artista plástica em Santiago (Chile)



Crônica é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores.
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