CRÔNICAS - Gaúcho
A pessoa nasce, cresce, fica adulta e envelhece, mas mesmo envelhecidos guardamos grandes recordações de nossa infância e juventude.
Criança ainda, fui morar no sítio com meus tios, entre vacas, porcos, galinhas, perus e outros animais, também tinha um cavalo para a lida no sítio. Gaúcho era o nome dele, pelos amarronzados mais puxados para vermelho escuro, crinas pretas
aparadas, cavalo bastante robusto e troteador, diziam que era de uma raça Índia, sossegado, gostava de andar a passos lentos quando puxava a carroça e não era muito bom de sela, pois por ser trotão, era difícil de controlar em cima dele, às vezes dava alguns galopes.
Mas mesmo assim a gente gostava muito de pegá-lo para dar umas voltas e lidar com o gado, neste caso, ele não era muito apropriado, pois era bastante lento e não tinha mobilidade para apartar um bezerro de sua mãe, acabávamos descendo dele e enquanto ele pastava, corríamos atrás das vacas com uma vara na mão.
Bastante teimoso no momento de abrir uma porteira, montado nele não encostava o suficiente para que pudéssemos soltar as travas das mesmas e tínhamos que descer.
Gaúcho não era de dar moleza para a molecada, quando ele empacava era difícil de conduzi-lo. Existiam momentos em que descíamos dele, puxávamos a corda e montávamos mais adiante, quando íamos pegá-lo no pasto. Se não levasse uma espiga de milho não tinha jeito de passar a corda no seu pescoço, corria para todo lado.
Meu tio me chamava "pega o gaúcho para que possamos passar o arado em meio ao cafezal", eu ficava com preguiça e triste porque além de querer brincar, o cavalo às vezes empacava puxando o arado e quando saía arrastava meu tio e já vinha com a boca aberta para me dar mordida, levei algumas mas não batia nele.
Algum tempo depois muitas coisas mudaram no sítio, Gaúcho não puxava mais carroça, ninguém montava mais nele e também não puxava o arado para o meu tio.
Foi deixado em um pequeno pasto, onde ele morou por muitos anos, envelheceu, morreu e foi enterrado naquele mesmo lugar onde anos atrás havia chegado.
Hoje ao chegar ao sítio que era do meu tio ainda olho para aquele pasto e não vejo mais o Gaúcho, hoje só saudades daquele tempo.
Antônio José Rodrigues é aposentado em Londrina
Crônica é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores.
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