Lá vem ele, como quase toda manhã, com seu boné azul e a sua bengala branca tateando a calçada, óculos grossos escorregando sobre o nariz, camisa de manga comprida - apesar do calor logo cedo - calça marrom e alpargatas pretas, um pouco largas pelo uso, o que faz com que produzam um barulho lento e arrastado a cada passada sua. Alto e magro, muito magro, avança pela calçada passo a passo, bem devagar, batendo no chão diante dele com a bengala como se quisesse certificar-se de que ele ainda está ali antes de dar o próximo passo. Vem virando a esquina, onde fica a sua casa, chega até a metade do quarteirão e dá meia volta, sempre com aquele andar inseguro e extremamente vagaroso... E falando sozinho. De longe não dá para notar, mas ao chegar perto, mesmo do outro lado da calçada, pode-se ouvir a sua voz, surpreendentemente alta e clara, discursando enquando faz seu percorrido. Umas vezes parece conversar com alguém, outras expressa opiniões sobre política, agricultura, educação ou narra acontecimentos da sua juventude.
Em algumas ocasiões se mostra bravo e a sua face pálida e enrugada adquire nuances de profundo desgosto. Ele interrompe seu passeio e fica por alguns instantes imóvel, como se estivesse escutando alguma resposta à sua repreensão. Depois, continua a caminhar, lábios apertados e cabeça baixa, testa franzida, murmurando frases em tom ressentido.
Vira a esquina, passa diante do portão da sua casa e vai sentar na mureta que cerca a data vizinha, cheia de mato seco e entulho, e fica ali mais algum tempo, examinando a terra, as pedras e as ervas amarelas, sem parar de tagarelar. A casa onde mora, de grades e persianas vermelhas, parece sempre vazia e silenciosa; não há roupa no varal, nem cachorro, nem barulho na cozinha ou alguma janela aberta. Nunca vi ninguém varrendo a calçada ou regando o exíguo jardim, nem senti cheiro de café ou pão quando passei diante dela...
Será que este homem mora sozinho ali? Ou será que sai para a rua conversar com seus fantasmas simplesmente porque ninguém lá dentro presta atenção à sua fala interminável? Ninguém teme que ele tropece e caia, que passe mal ou se afaste demais e depois não saiba voltar?... Eu já o vi ir até a outra esquina, totalmente absorto em sua conversa, enquanto os carros passam levantando poeira diante do seu nariz. Seus passeios e falas solitárias me intrigam pela falta de atenção e cuidado dos parentes, mas também me levam a pensar em todos aqueles que, mesmo não sendo idosos ou alienados, falam sozinhos. Como eu, por exemplo...
Por que erguemos a voz ao invés de pensar? Por que nos dirigimos a objetos, lugares ou animais que sabemos não podem responder nem oferecer-nos soluções, consolo ou solidariedade? Estamos tão sós assim? Realmente não há ninguém para nos escutar?... Ou será que o que temos a dizer não é para os ouvidos das pessoas e sim para os da paisagem, os do cachorro, os da roseira, os das paredes?... Acontece que paisagem, cachorro, roseira e parede não nos julgam, não nos interrompem nem tentam nos impor as suas opiniões. Pelo contrário, eles nos permitem refletir por nós mesmos sobre o que nos preocupa, o que nos alegra, sobre nossos sonhos e nossas perdas. Seu silêncio e imobilidade ativam o nosso movimento interior, pois estão sempre aguardando, sem pressões e sem urgências, pelas nossas conclusões, respeitando o ritmo dos nossos processos.
Na sua calada quietude nos estimulam a pensar, a expressar, a entender e enfrentar o mundo em que vivemos, nos colocam na realidade e ao mesmo tempo, nos dão a fantasia de um amigo para todas as horas...
''Falar para as paredes'' não é uma ação inútil ou ridícula, mas um começo de diálogo, uma interação na qual uma parte de nós, de algum modo, toma conta do cimento, a tinta, as folhas e pétalas, os pêlos e o focinho e nos dá um mudo retorno que, por vezes, é tudo que precisamos para continuar, para decidir ou mudar...
Falo com meu quarto, então! Cumprimento a minha sala de aula toda vez que entro nela! Faço comentários com meu cachorro enquanto assisto televisão! Confesso à roseira meus medos e esperanças! Elogio as flores dos jardins, agradeço a sombra das árvores, opino sobre o canto do sabiá, dou bronca nas pombas, digo ''olá'' para os cães na rua e na casa dos vizinhos, tudo em voz alta!...E por que não? Eles não ficam me olhando esquisito, pelo contrário, sempre têm uma resposta para mim e é assim que eu tenho certeza de que Deus ouve e acolhe cada uma das minhas palavras, pois no fundo, eu sei que é com Ele que falo. Foi o jeito que Ele encontrou para estabelecer seu diálogo diário comigo e eu, sinceramente, acho um barato.
PAZ ALDUNATE é professora de teatro, dramaturga e escritora; em 2000 participou da antologia da Editora Litteris ''Grandes Escritores do Cone Sul'', com o conto ''A estrela e primeiro sábio''

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