CRÔNICAS - Contagioso
Lá vem ele, arrastando seu corpo gordo e desengonçado feito um fardo insuportável, com seus chinelos surrados e descoloridos e suas encardidas meias de algodão . Os cabelos estão sempre oleosos e em desordem e leva óculos velhos, embaçados de gordura, que tentam esconder seus olhos opacos e desenganados.
Caminha como que sem rumo, levando dois poodles presos a umas coleiras que pendem das suas mãos morenas e sem força feito duas algas secas. Curiosamente, os cachorros parecem sofrer do mesmo tédio e desinteresse do seu dono e vão por aí de cabeças baixas e rabos murchos, dando furtivos olhares de mágoa e resignação ao homem a quem estão obrigados a acompanhar. Não correm nem pulam atrás das pombas, não farejam na grama, não mostram nenhum entusiasmo por nada. Só sobem no canteiro, fazem seu negócio e retornam ao triste passeio, feito as sombras do homem...
Eu os vejo passar e não posso deixar de me admirar ao perceber como o ser humano tem essa capacidade assombrosa de contagiar tudo que o rodeia com o seu próprio carisma. Quartos, locais de trabalho, jardins, animais, filhos, noivos, carros, tudo reflete seu estado de espírito, suas crenças, seus sonhos, suas frustrações e decepções, sua raiva, sua felicidade, sua fé.
Se o nosso espírito está em caos, tudo ao nosso redor será uma total desordem. Se estamos felizes a nossa casa se verá iluminada e harmoniosa. Se somos bem humorados, as nossas mascotas usarão coleiras coloridas e lenços com estampas engraçadas. Se estamos apaixonados, botaremos flores na janela... Assim, nosso caráter é, efetivamente, contagioso porque, queiramos ou não, tinge o mundo em que vivemos e às pessoas com quem nos encontramos, afeta tudo e a todos.
Muito - ou tudo - pode ser dito sobre nós observando nosso cenário, por isso temos de trabalhar e nos esforçar para estar bem, para que acontecimentos e pessoas positivas façam parte da nossa vida, devemos aprender a cultivar a compaixão, a generosidade, a responsabilidade, a gentileza e a boa vontade, e espalhá-las em volta, pois assim tudo que se relacionar conosco será um presente para o mundo e contribuirá para sua paz e bem-estar.
Paz Aldunate é professora, escritora e artista plástica em Santiago (Chile)
Crônica é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores. Os textos, com no máximo 30 linhas, devem ser encaminhados com telefone de contato para [email protected].





