CRÔNICAS - Atravessar a rua
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 23 de janeiro de 2008
Paz Aldunate 
Sempre me chamou a atenção esta frase: ''Não há que buscar novas paisagens e sim olhar a paisagem com novos olhos...'' Parecia-me um pouco desconcertante, como se o conselho fosse permanecer parado, esperando alguma coisa cair do céu, não sair do lugar para ir à procura de novos horizontes, de mudanças, de crescimento. Aí, eu me perguntava: aquela era mesmo uma frase digna de ser publicada e celebrada? E, sem querer, fiquei meditando sobre ela, sobre seu mérito, seu objetivo. E venho pensando nela desde que a li numa folha de papel pregada na parede das salas da Fundação Cultural. Quem a teria colocado ali? E com que intuito...? Sem resposta.
Mas, então, aconteceu que outro dia voltava do Centro no fim da tarde, caminhando pela mesma rua pela qual volto todo dia, quando não sei o por quê decidi atravessar e vir andando pela outra calçada. Talvez o sol batesse com menos força daquele lado, talvez as árvores oferecessem mais sombra, talvez a calçada fosse menos acidentada ou, quem sabe, pegasse uma carona com algum conhecido vindo pela mesma rua... Primeiro não percebi nada de diferente, mas, depois de avançar alguns metros, ergui os olhos e os deitei pela rua abaixo... Que surpresa! Uma visão totalmente diferente, nova, da velha rua, se descortinou diante de mim!
Parei, totalmente surpresa, e soltei uma silenciosa exclamação e um sorriso. A famosa frase veio como uma lufada de vento ao meu cérebro... Como eram diferentes as coisas desde este outro ângulo! As sombras, as árvores e as casas, a perspectiva das outras ruas perpendiculares, dos jardins, da padaria, da locadora, do bar... Até as cores e os sons pareciam ter nuances diferentes, vozes novas, falas desconhecidas! Estava pasma. Mudar o ângulo - o olhar - realmente muda a paisagem. Tudo é novo, tem outras dimensões, outras consequências, você consegue enxergar o que não via da outra posição. Todos os conceitos se reformulam, segredos são revelados, a nossa própria postura muda, o vento sopra de outros lugares, traz outras mensagens... Velha paisagem, novos olhos: transformação.
Compreendi, então, o sentido daquela frase da folha na parede. Não há que cansar-se de olhar, pois a paisagem possui mil nuanças e lições que somente com novos olhos, nova disposição e curiosidade poderemos enxergar e aproveitar. A rotina é uma assassina. Nos esmaga, nos embrutece, nos mutila, porém, geralmente somos nós mesmos quem permitimos que ela nasça, cresça e se instale em nossas vidas, aniquilando-as e roubando-lhes todo o prazer e a alegria, o frescor, a criatividade, a percepção e a inocência que são seu motor, tornando-nos assim velhos e enfastiados, sem esperança, sem luz.
Olhar a vida cada dia como o milagre de diversidade que ela é, é um tônico para a saúde e faz crescer a alma e a vontade de continuar e se renovar. Basta uma piscada e tudo terá mudado, inclusive nós mesmos... Por que não atravessar a rua?
PAZ ALDUNATE é professora de teatro, dramaturga e escritora; em 2000 participou da antologia da Editora Litteris ''Grandes Escritores do Cone Sul'', com o conto ''A estrela e primeiro sábio''


