CRÔNICAS - Andarilho
Às vezes saio pelas ruas, estradas, vilas, lugarejos, cidades, estados e até outros países, já conheço muito de seus caminhos e conhecerei outros também nesta ida. Nestas caminhadas saí sem destino, é uma viagem para nunca mais voltar e ao mesmo tempo volto não sei por quê. Alguma coisa me falta que não consigo parar em lugar nenhum, fico vagando sem rumo.
Andando por estradas de terra, estradas asfaltadas, pontes sobre rios, vejo muita gente, alguns já conhecidos, outros que ainda não foram por mim avistados. Coisa estranha me parece que eu já conhecia aquelas pessoas de algum lugar e que alguns já haviam morrido e estavam ali, mas seguindo em frente além das pessoas vistas pelo meu caminho conheci muitas casas e castelos antigos, alguns já deteriorados pelo tempo, mas mesmo assim, havia pessoas morando dentro deles, coisa bem antiga mesmo.
As pessoas ficavam me olhando, alguns com a face fechada, outros sorrindo apontando para mim, talvez debochando da minha situação, crianças correndo em minha direção, até jogando pedras para me acertar e atiçando seus cachorros para me morder, e eu com minhas roupas velhas sujas, chinelo de couro remendado, uma bolsa suja nas costas com o mínimo que eu poderia carregar.
Nestas caminhadas eu comia o que me dessem, bebia água das nascentes, às vezes tomava banho nos rios e dormia em qualquer lugar que me acolhesse ou também em qualquer canto possível de descansar de um dia inteiro de caminhada.
No amanhecer saía novamente, não podia parar ali, algo me dizia que eu deveria sempre caminhar, caminhar sem destino ou procurando algo - sei lá o quê, olhando o horizonte sol, chuva, calor e até muito frio. Estranho como a temperatura mudava de um lugar para outro até um tanto perto como se saísse do sol e entrasse numa sala com ar condicionado ao mesmo tempo, e seguia em frente sem parar.
Depois de dias, semanas, meses e até anos caminhando sem destino para ficar eu resolvia voltar, voltava pelo mesmo caminho passando por todas as etapas da minha ida. Aquelas roupas velhas, chinelo e sacola, ficaram pelo meio do caminho, estava descalço e apenas com a roupa do corpo que encontrei no chão de uma estrada.
Esta vida de andarilho eu tive algumas vezes nos meus sonhos, não sei por que ao acordar de manhã, sinto um cansaço muito grande e com dores nas plantas dos pés, parece que caminhei a noite toda.
Diante desses sonhos eu imagino que em alguma vida passada eu fui um andarilho.
Antonio José Rodrigues é aposentado em Londrina
Crônica é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores. Os textos, com no máximo 30 linhas, devem ser encaminhados com telefone de contato para [email protected].





