Passava das duas da manhã quando tocou meu "bip" informando falta de luz no Velório Municipal. Liguei para o meu parceiro e seguimos atender a reclamação.
Ao chegar notamos apenas o guarda noturno nos aguardando. Ele pediu desculpas por ter ligado, mas justificou, dizendo que um corpo estava sendo velado na sala um.
Estranhamos pois não vimos ninguém além do guarda e da escuridão.
Restabelecemos a energia e percebemos uma senhora de meia idade, melancolicamente solitária naquela penumbra, com o corpo estático ao lado de um humilde caixão.
Entre lágrimas ela, suavemente, passava a mão na testa do defunto e murmurava:
- Meu filho, por que fizeram isso com você?
Naquela sala, além da mulher e do seu filho morto, como testemunha, apenas Cristo crucificado num pedestal de ferro niquelado, sem flores nem ornatos à luz de preguiçosas velas.
Lembrei que no dia anterior, um delinquente havia sido assassinado por traficantes, a golpes de facão, no escadão da Rua Frei Henrique. O guarda ainda classificou o adolescente como "tranqueira"; sem deixar de exclamar:
- Foi uma limpeza, esse não dará trabalho para mais ninguém!
Tenho certeza que essa mulher jamais pensou em ter filho bandido; ainda que tenha falhado na sua educação, mas isso não vem ao caso. As lágrimas que agora verte é o retrato do amor que classifico como: incondicional!
Diante da morte de um filho qualquer mãe chora, mesmo que seja um amor bandido. Esse foi o filho que ela conseguiu criar e amar.
Como qualquer mãe ela também acordou várias madrugadas para fazer mamadeira para o filho. Tenho certeza que ela correu para o médico quando o termômetro chegou nos 37 graus. Acredito que ela, também, guardava uma caixinha com remédios para eventualidades.
Não duvide que, em noites de inverno, ela foi ao quarto do menino para cobri-lo. Ela, como todas as mães, também pulou de alegria quando o filho engatinhou e andou pela primeira vez e, pela primeira vez, pronunciou "mãeeeee"!
Nesse drama todo, só não me perguntem do pai, sinceramente não sei!
Jamais duvide do amor de uma mãe! As mães são presentes de Deus!

João Candido da Silva Neto é eletricitário em Santo Antônio da Platina

Crônica é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores. Os textos, com no máximo 30 linhas, devem ser encaminhados com telefone de contato para [email protected].

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