CRÔNICAS - Alfinetadas
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terça-feira, 04 de março de 2008
Alberto Chahaira Sobrinho 
Ninguém conseguia entender o que havia acontecido com ela. A família estava desesperada e suplicou a minha ajuda. Éramos amigos de longa data. Apesar de havermos ficado muitos anos distantes, eu a conhecia muito bem. Era uma mulher admirável. Um equilíbrio invejável. O que teria ocorrido?
Toquei a campainha, nervoso e bastante ansioso.
Ela abriu a porta, me olhou e não pareceu surpresa.
- Então eles chamaram você também - falou ao mesmo tempo em que esboçava um quase sorriso.
- É assim que se recebe um amigo? - ironizei.
- Desculpe-me, mas é que imagino o motivo da visita.
- Bem, então vou direto ao assunto: o que está acontecendo com você?
- Comigo? Absolutamente nada!
- Mas por que não quer mais ser chamada pelo seu nome...
- ''Alfinete'' - ela me interrompeu - me chame de ''alfinete''!
Então era verdade! Ela só admitia que a chamassem de ''alfinete''! Tentei manter a calma, se é que é possível ficar calmo com tamanho absurdo. Olhei-a intrigado. Ela continuava impassível.
- Pois bem - falei tentando organizar os meus pensamentos - então me responda: que tipo de brincadeira é essa?
- Eu nunca falei tão sério com você como estou falando agora.
- Sério? Você diz que é um ''alfinete'' e quer que eu ache isso sério?
- Sim.
- Por que você diz ser uma coisa que na realidade você não é?
- Você é meu amigo?
- Lógico que sim!
- Então vejamos: você está há mais de cinco anos sem me ver, neste lapso de tempo você não me telefonou, não me escreveu, não sabia nem se eu estava viva, veio hoje aqui por insistência da minha família e diz que é meu amigo. Pois eu digo que sou um alfinete!
- Bem, você pode até estar zangada comigo, tudo bem, mas não justifica. E no seu trabalho? O que eles dizem disso?
- Nada.
- Não acredito.
- Quando eu fui contratada, eles disseram que eu não precisaria trabalhar depois do horário e que o meu salário nunca iria atrasar. Ah, disseram também que o chefe nunca iria me dar uma ''cantada''. Pois eu digo que sou um ''alfinete''!
- Isso é uma loucura! Você está precisando de um médico!
- Você está dizendo que eu estou louca?
- Na verdade, sim!
- Ótimo, o Chaves diz que a Venezuela é uma democracia, o Bush diz que o objetivo de suas guerras é a paz e os políticos brasileiros dizem que se empenham pela melhoria da educação. Pois eu digo que sou um ''alfinete''!
- Então é assim? Pois eu acho que só tem uma saída; vou ligar para o seu ex-marido e dizer que não será mais necessário mandar o dinheiro de sua pensão, afinal, um ''alfinete'' não precisa de dinheiro, não é mesmo?
- Bem, a gente sempre pode mudar o nome para ''agulha''!
ALBERTO CHAHAIRA SOBRINHO é bancário aposentado e escritor amador em Bela Vista do Paraíso


