Não, caro leitor, não se trata de um texto sobre algum tipo de droga que produz aquelas alegrias momentâneas, fugazes, seguida de depressões e tristezas. Trata-se de um outro tipo de droga que é produzida pelo próprio organismo e quando ministrada faz com que o ambiente torne-se leve e as pessoas felizes. Falo da alegria, uma droga fácil de produzir, pois depende só de nossa boa vontade.
Não, não estou interessado na alegria em geral. Seria difícil discuti-la. Prefiro falar dela numa situação concreta, manifestando-se num determinado contexto e mudando radicalmente o próprio sentido do acontecimento e o estado de espírito das pessoas presentes. Esclarecido o título, vou ao assunto.
Imagine o anfiteatro da universidade, aquelas poltronas confortáveis, mas dispostas numa situação em que torna seu ocupante um espectador passivo e sujeito às vontades das pessoas que se acomodam no palco mas que a gente poderia chamar de púlpito. Não, não é uma igreja, mas chega perto, pois o padre fala e seus devotos ouvem; o que não é nada diferente daquele anfiteatro arquitetado segundo o princípio que coloca o palestrante, professor ou quem quer que seja na posição cômoda de dono da palavra.
Lá, naquela mesa enorme, os representantes do poder acadêmico: o diretor da instituição representando a autoridade máxima que é o reitor, a representante da editora, afinal é o lançamento de um livro e ela precisaria estar presente, um representante de uma ONG de combate à Aids, figura também importante porque o livro é um trabalho de pesquisa sobre esta doença e, claro, a professora que é a autora do livro. Nenhum aluno à mesa.
No anfiteatro, quase lotado, professores, alunos e muita gente de fora da comunidade acadêmica, a maioria participante de um encontro sobre saúde pública. A expectativa desta platéia era a costumeira: primeiro, apresentar o objetivo daquele encontro, depois os presentes à mesa e, por último os discursos de cada um. A professora, principal alvo de atenção, ficaria como é comum neste tipo de evento, por último, quando então apresentaria seu livro e as condições de sua realização.
E tudo transcorreu como o previsto: falou a editora, falou o diretor, mas quando a professora pegou o microfone um susto geral. Um jovem, cabelos negros amarrados por um lenço, lançou-se ao palco, pediu licença e, em nome dos alunos, iniciou um discurso. A princípio, salvo raras exceções, todos expressavam em suas faces uma inquietação que poderia ser traduzido por ''meu Deus, será que esse cara vai fazer algum tipo de protesto''?
Todos estavam enganados. Enquanto o jovem articulava seu discurso, outros jovens, vestidos com uma camiseta preta, um deles carregando um teclado eletrônico, dirigiam-se ao palco e se preparavam.
- Professora, em nome dos alunos quero lhe dizer que... E apontou para o grupo, na verdade um coral de vozes masculinas que cantou:
- Eu sei que vou te amar, por toda a minha vida vou te amar, uma das músicas de sucesso da época saudosa da bossa-nova.
Surpresa geral. Terminada a apresentação vieram os aplausos efusivos tornando o ambiente leve, alegre. Em seguida, o organizador, o jovem de cabelos compridos e amarrados por um lenço pronunciou algumas palavras enaltecendo a qualidade profissional e humana daquela professora que estava ali, surpresa e sem entender muito bem o que se passava, mas que, pelo discurso do jovem tinha uma importância muito grande enquanto educadora daqueles mesmos jovens. Foi-lhe então entregue um buquê de flores e o happening, porque não deixou de ser isso, um happening que terminou com uma nova música, ''Você'', de Tim Maia, que ouvida naquele contexto tinha o significado preciso de encarar aquela figura como uma das mais importantes professoras da instituição, aos olhos daqueles alunos.
Não há sisudez que resista à alegria, que é sempre, para repetir o poeta, a prova dos nove, mesmo quando se trata de academia.
O que nos sobra deste evento? Primeiro, ficou muito claro que, dependendo de como se encaram as coisas, a frieza e sisudez do trabalho acadêmico podem desaparecer dando-lhe vida e novo significado, contribuindo para aliviar seu peso e torná-lo motivo de prazer. Segundo, e isto é muito importante para qualquer educador ou pessoa interessada na formação de cidadãos cônscios e responsáveis, o descrédito que as escolas sofrem só pode ser combatido com gente como esta professora que pela qualidade de seu trabalho e, mais importante ainda, pela sua humanidade consegue motivar seus alunos dando-lhes a possibilidade de escolher seus próprios caminhos.
Manifestações como essa permite a nós, eu e você, leitor, acreditar que é possível uma escola de qualidade. Injetar alegria na veia é um bom começo.

CESAR AUGUSTO DE CARVALHO é professor da Universidade Estadual de Londrina

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