CRÔNICAS - A sombra do mendigo
Chove. O mendigo sai andando pela rua. Não sabe para onde vai. Não tem destino. Falseia. Pisa na sarjeta onde a enxurrada faz um rio e lhe encharca o pé. Resmunga um palavrão ininteligível.
Carrega sobre as costas um cobertor velho e roto - agora molhado -, o cabelo por fazer bem parece um ninho de passarinho. E a barba, se não for, haverá de ser um hotel de piolhos.
Caminha devagar na noite sob a chuva. A luz do poste faz uma sombra que lembra um homem. De repente para e se apercebe dela. Num instante ele parece se lembrar de algo. Talvez do que tenha sido. Ou do que deixou de ser. Quem sabe até do que poderia ter sido.
Tira de sob o cobertor duas mãos. Olha para elas como para duas coisas estranhas. Que se fazem trêmulas com o frio. Vê então sua sombra debaixo do poste. Olha para cima e fecha os olhos. Pisca com as gotas da chuva que caem sobre eles.
Por um breve momento sente algo, baixa os olhos e novamente vê as suas mãos. Os olhos úmidos mais do que antes. Enfia as mãos sob o cobertor molhado novamente e brevemente sorri. Caminha silencioso sob a chuva, não mais ele sozinho mas com sua sombra companheira pela rua noturna e glacial a lembrar-lhe que ali ainda existe um homem.
Dailton Martins é comerciante em Londrina
Crônica é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores. Os textos, com no máximo 30 linhas, devem ser encaminhados com telefone de contato para [email protected].





