CRÔNICAS - A morena do metropolitano
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008
Devaldo Gilini Júnior 
Todos os dias é a mesma coisa. Ela entra no ônibus metropolitano e recebe todos os olhares, sem distinção. Homens, mulheres, crianças - motorista e cobrador, nem se fala - não conseguem disfarçar. A morena chama a atenção, mas não esboça nenhuma reação. Nenhum sorriso, nenhum gesto, nada. Simplesmente entra, fica em pé, impávida, para delírio da platéia.
A roupa, ajuda. Chova ou faça sol, calor insuportável ou frio de rachar, sempre o mesmo modelito: calça de cintura baixíssima e blusinha deixando a barriga de fora, ficando à mostra, para quem quiser ver, o piercing, delicado, no umbigo.
Tem também os acessórios. Colares, brincos e pulseiras de montão. Todos enormes, para chamar a atenção mesmo. A bolsa sempre combinando com o cinto e os sapatos (de salto alto, é óbvio). Celular nas mãos, com unhas grandes e vermelhas. Nos delicados ouvidos, fones conectados, para não dar brecha a ninguém.
Não sei se os fones estão realmente funcionando ou servem apenas para deixar bem claro que ela não quer conversa. É verdade! Tenho um colega de metropolitano que faz isto. Coloca o fone de ouvido quando não quer conversar, mas não tem nada ligado. É só para afastar os falastrões, que são a grande maioria no transporte coletivo, tirando os bêbados e os chatos de plantão. Freud explica... ou, se não explica, complica.
A morena é magérrima - quero deixar bem claro que não faz o meu tipo, prefiro as mais cheinhas, com recheio. Tem barriga de tanquinho. Olhos negros, profundos. Cabelos pretos, compridos. Rosto fino e meigo. Boca vermelha, daquelas prontas para qualquer negócio. Faz sucesso por onde passa, com certeza.
Nos quase 30 minutos que dura a viagem, é impossível retirar os olhos de cima dela. Todos tentam disfarçar, começam a olhar pelas janelas, puxar papo com os passageiros ao lado, mas não adianta. Os olhos sempre escapam e vão parar na morena. E ela lá, sem nenhuma reação. Nem mesmo um ar de reprovação, que seria natural a qualquer pessoa que estivesse no lugar dela, sendo observada o tempo todo como se fosse um animal raro (quem sabe, não é mesmo).
O mais misterioso disso tudo é que ela fica lá na frente, perto do motorista, mesmo que o ônibus esteja vazio - o que é difícil de acontecer, porque o metropolitano só roda bem lotado. Parece saber que todos os olhares são para ela, talvez fique constrangida de passar por todo mundo e ouvir os gracejos de sempre, principalmente da galera masculina.
Pelos corredores, só se ouvem murmúrios quando querem se referir à bela morena. Quem é ela? Onde trabalha? Tem namorado? Aliança, pelo menos, não usa. São questões que percorrem a mente de todos, tenho certeza absoluta. Mas que não devem ser sanadas brevemente.
É só chegar perto do ponto onde ela costuma subir, que já começa o frisson. Quando ela não embarca, a decepção de todos é muito grande. Falo isso, porque a maioria dos passageiros pega sempre o mesmo ônibus, todos os dias, no mesmo horário. São conhecidos de longa data. Podem não saber os nomes uns dos outros, mas mesmo assim conversam como se fossem amigos a vida toda. É assim que funciona o tal do metropolitano.
Quando ela entra no ônibus carrega o peso de todos os olhares, sem exceções. Não sei aonde a morena vai, nem mesmo de onde vem. Quando ela entra, já estou no ônibus e, quando ela sai, já desci. Não tenho coragem de me aproximar - um pouco pela minha timidez e outro tanto, bem maior, por causa da minha mulher, que é uma fera.
Também têm os malditos fones de ouvido, que impedem qualquer contato. Mas fico tranquilo porque ninguém no metropolitano se atreveu, até agora, a puxar papo com a morena. Ela está invicta. E vai continuar assim por muito tempo. Afinal, a fantasia, sempre, é melhor que a realidade.
DEVALDO GILINI JÚNIOR é da Equipe de Editores da Folha de Londrina


