São Paulo, 23 (AE) - Reestréia sábado (25) "Crônica do Amor Louco", filme polêmico do começo dos anos 80. Nem poderia deixar de ser assim. Afinal, trata-se da adaptação de um maldito por outro. O italiano Marco Ferreri decidiu levar para a tela um livro de Charles Bukowski, príncipe da beat generation americana. Serking, alter ego tanto do escritor quanto do diretor, é vivido por um Ben Gazzara inspirado.
Ele é um poeta bêbado, errante, que busca não um ponto de chegada, mas o prazer da viagem em si. É um provocador, encrenqueiro, adepto da proeza física, sempre com uma garrafa na mão. Enfim, um caçador de sentido para a vida, não muito bem-sucedido, como costuma acontecer nesses casos. A trajetória caótica de Serking recebe um tratamento visual onírico, como se tudo fosse visto por uma ótica crepuscular, incerta, em lusco-fusco. Serking vai de experiência em experiência sexual, enquanto viaja de Los Angeles, cidade natal dele, até Nova York, e de volta a Los Angeles. Uma piração de costa a costa. Não se detém em leito nenhum, a não ser no de uma jovem e deslumbrante prostituta vivida por Ornella Muti.
Com ela, Serking vive o amor louco do título. Paixão total, avassaladora e autodestrutiva, que passa pelo fetichismo e pela humilhação, procura a ascese em alguma parte e não tolera diminuição; que flerta com a morte e só pode terminar de maneira trágica, final previsível para qualquer um que conheça minimamente o alfabeto do desejo humano.
O tema, ou talvez o espírito de transgressão, foi a meta constante de Ferreri buscada de muitos ângulos diferentes. A novidade neste filme é a paisagem norte-americana, tratada de maneira quase alucinatória, hiper-realista, como se os personagens se movessem num ambiente de pesadelo. É o europeu visitando o mundo novo e reencontrando nele o caos moral que experimentara em casa.
Não é muito difícil reconhecer na carreira de Ferreri a marca de um provocador. Basta lembrar de um outro título, como "A Comilança", que ficou vários anos proibido no Brasil. Nele, um grupo tranca-se num castelo para se empanturrar e transar até morrer, uma espécie de versão meridional do clássico de Sade, "120 Dias de Sodoma".
"A Comilança" pode ser mais chocante, mas "Crônica do Amor Louco" é o filme mais interessante de Ferreri. Poucas vezes o cinema visualizou, com tanta acuidade, mas também com tanta crueldade, o dilaceramento do homem moderno. O par central é um protótipo. Gazzara, na pele de Serking, é daqueles seres que fazem do próprio corpo a metáfora do sofrimento da espécie. A maceração da alma e do corpo sendo o sucedâneo leigo para uma desesperada busca de pureza por meio da expiação. Ornella é a contrapartida. Fica na lembrança do espectador aquela deusa perfeita, de beleza quase incômoda, com um enorme alfinete atravessado no rosto, de ponta a ponta. Está tudo mais ou menos aí, na beleza profanada, na busca da pureza que passa pela lama, na serenidade que tem de ser antecedida por uma prolongada estação no inferno.

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