CRÔNICA A primeira Páscoa
PUBLICAÇÃO
sábado, 19 de abril de 2003
Estélio Feldman 
Tradução do manuscrito encontrado em uma caverna, nas proximidades do Mar Vermelho e que, segundo as análises feitas pelos especialistas, foi escrito há mais de 5 mil anos:
''Lembro-me bem daquela noite. Na verdade, embora ainda não fosse adulto (nota do tradutor: entre os judeus, é considerado adulto o homem acima dos 13 anos) lembro-me de todos os acontecimentos das semanas que precederam aquela noite e da figura estranha daquele homem, Moisés, que surgiu anunciando a libertação do povo.
Sim, é importante lembrar, nós eramos escravos no Egito há tanto tempo que a memória não alcança (nota do tradutor: segundo as escrituras, os judeus foram escravos dos egípcios durante 400 anos). O que me lembro é de meus pais falando da esperança da libertação, sob o açoite dos feitores. Mesmo eu, criança, experimentei o chicote do Egito.
Daí, aquele homem chegou e falou em libertação. Eu o vi, de longe. Parecia-me um ser estranho, alto, com uma barba branca, chegava a assustar. Meus pais se dividiam entre a esperança e o medo. Minha mãe falava que nada de bom poderia vir do homem que, dizia, tinha sido criado pela filha do Faraó. Mas a maioria acreditou. Só que o homem não teve muito sucesso. Pelo contrário. Logo depois que ele procurou o Faraó, as coisas pioraram para todos nós, os escravos. Aumentaram as tarefas. Meus pais estavam arrebentados, de tanto trabalhar.
Foi então que começaram a acontecer coisas. Não entre nós, mas no Egito. Disto não lembro muito bem. Sei que falavam de coisas pavorosas: ataque de gafanhotos, tempestades terríveis, dias e dias sem Sol. Falaram até que as águas do Nilo ficaram vermelhas, como sangue, por vários dias...
Então, aconteceu aquela noite. Meu pai chegou à tarde em casa, anunciando que o homem, Moisés, tinha dito que naquela noite Deus nos libertaria do Egito. Já minha mãe tinha ouvido coisa diferente: disseram que, naquela noite, soldados egípcios viriam a nossas casas para matar todos os primogênitos judeus. Minha mãe estava apavorada. Meu pai era primogênito. Eu também fiquei: eu também era.
Pela primeira vez na vida, vi meu pai irritado. Disse que minha mãe tinha de acreditar em Deus. E deu as ordens. Ele próprio matou um cordeiro e passou o sangue em nossa porta. Mandou que nos vestissemos como se fossemos viajar e que minha mãe preparasse um jantar especial. Quando perguntei porque tinha passado sangue do cordeiro na porta, ele explicou: ''É que esta noite o Anjo da Morte vai passar sobre o Egito e vai tomar todos os primogênios. E pulará sobre a casa dos judeus, marcada com o sangue do cordeiro'' (nota do tradutor: esta é a origem do nome Páscoa. Significa que o Anjo da Morte pularia sobre a casa dos judeus, atingindo só as que não tivessem a marca do cordeiro).
Fiquei um pouco descrente. Mas todos obedecemos. E, naquela noite, jantamos, sentados à mesa, com roupas de viagem. Perguntei a meu pai por que tínhamos de fazer aquilo e ele explicou: ''Hoje, Deus vai nos livrar da escravidão do Egito. Vamos jantar e antes da noite terminar, iniciaremos a viagem para a terra da Promissão, que Deus prometeu a Abraão e a toda sua descendência''.
Então, enquanto jantávamos, ouvi um barulho estranho fora de casa. Era como se um bando de pássaros estivesse voando por ali. Logo depois, começou um clamor terrível, vindo das terras egípcias. ''São os egípcios chorando seus primogênitos mortos'', explicou meu pai.
Era madrugada quando recebemos ordens para partir. Todos insones, muitos assustados, iniciamos a jornada que nos levou ao deserto e à liberdade.
Isto aconteceu há muito tempo. Mas como aquele homem, Moisés, mandou que contássemos aqueles fatos para que jamais fossem esquecidos, eu, Yosef, filho de Yakob, da tribo de Asher, resolvi escrevê-los. Assim, meus filhos, os filhos de meus filhos e todos quantos viverem através dos tempos vão saber como foi que Deus libertou Seu povo do Egito e O levou à Terra Prometida''.


