CRÔNICA
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 09 de maio de 2017
Por Marian Trigueiros 
Quando se é criança, o mundo é outro. O pequeno é grande e o grande é pequeno. O tempo se constrói à medida da imaginação. Criança tem o poder de criar personagens, de inventar histórias, de acreditar no impossível. Marinósio não precisava de nada disso, era o protagonista de um conto de fadas às avessas.
Nas lembranças de uma menina de onze anos é o pai carinhoso, sonhador, sem preconceitos, de fala macia e sorriso cativante. Adorava soltar rojão nas festas juninas, colocar farinha no feijão como fazem os baianos, cantar dirigindo seu fusquinha, improvisar ao piano. Mas também era o pai livre de regras, limites próprios e comportamentos pouco convencionais. "Grita, filha! Pode gritar", dizia no meio da rua para, em seguida, cantarolar bem alto: "Eu sou negão, meu coração é a liberdade".

Não entendia, apenas observava. Às vezes gritava, timidamente. Na verdade, foram anos sem entender. Hoje, risos são imediatos com as lembranças. Características marcantes e peculiares de um homem atípico com um enredo nada previsível. A morte interrompe precocemente.
E lá se vão 24 anos sem sua presença. Mas não foi uma sentença final. Ao longo dos anos, outros Marinósios foram sendo apresentados à menina: o jornalista, o professor, o escritor, o organizador de mostras de música, o boêmio. Vários em um, um em vários.
Não deu tempo de conhecer, infelizmente. Um quebra-cabeças para montar, em andamento, com as diversas histórias que chegam de quem conviveu de perto. Um novo personagem ganha vida no conto da filha. Marinósio ainda vive intensamente. Sábio ensinamento.


