Ela se sentia oceano. Sem começo, nem fim. Você já viu uma parte do oceano? Não existe. É o todo, não tem como separar, dividir, classificar ou segurar. Ou você mergulha de cabeça, se deixa ser oceano, e faz ele ser você, ou se afoga antes mesmo de mergulhar.
Ela se sentia entregue. Entregue a algo que não entendia ou nem ao menos sabia o que era, mas se deixou levar. Deixou ser, fosse o que tivesse que ser.
Ela se sentia uma pena na asa de um gavião. Sentia a brisa da liberdade perante um voo incerto porém necessário. Ela se sentia fora do ninho. Não porque não pertencia mais ao tal, mas porque não era mais tão indefesa e tão dependente.
Ela se sentia flor que desabrocha num dia ensolarado. Olhos e elogios a cercavam. A brisa leve espalhava seu cheiro pelos lugares onde passava. O passarinho cantava, a terra molhava, a pétala abria.
Ela se sentia música que acalma numa noite conturbada. Se fez parte de sua música favorita, alternando, hora era letra, hora era melodia, e acabou por fazer sua própria música. Seu próprio jeito de se acalmar.
Ela se sentia alegria que invade alguém apaixonado. Sorria de tudo e por tudo, e fazia os outros sorrirem também. Queria que todos se sentissem como ela, que recebessem essa alegria, essa vontade de viver um amor a cegas, que só os apaixonados sentem.
Ela se sentia amor. Há poucos dias havia entendido mais coisas do que em sua vida inteira. Fez uma faxina em seu coração, e descobriu que havia amor até mesmo nas partes que há muito tempo não se limpava. Tudo era amor. Até mesmo a dor era amor.
Ela se sentia e se permitia sentir. Desde o arrepio de uma cócega até o frio na barriga de um beijo roubado. Sentiu e sentia tanto que se tornou sentimento. Sensível, como só ela, sentiu a necessidade de não mudar e continuar assim, mesmo correndo o risco do vulnerável. Ela se sente agora. Se sente como você, que lê esse texto, e entende que o que ela sente é amor. No fim, ela se encontrou. Sentiu e semeou. A flor, você, e o amor.

Gabriela Meneghetti, estudante de Letras em Londrina

Crônica é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores. Os textos, com no máximo 30 linhas, devem ser encaminhados com telefone de contato para [email protected].

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