CRÔNICA
Havia me mudado há pouco tempo para aquela rua e como de costume sempre saia de manhã, ou para comprar pão na padaria da esquina, ou para ir ao serviço diariamente como todo bom cidadão.
Todas as manhãs eu me deparava com uma senhorinha que morava na mesma rua e, de praxe, sempre eu a via em frente ao portão, com uma vassoura em suas mãos varrendo ciscos e folhas de seu quintal. Sempre que ela se deparava com minha presença a passar por ali, deixava o que estava fazendo e imediatamente me observava, seguindo com os seus olhos até não mais poder enxergar.
Eu achava tremendamente estranho sua atitude, todas as vezes que passava por ali, ela parava o que estava fazendo e ficava me observando. Talvez lhe causasse curiosidade os costumes do novo morador e eu ficava imaginado o que poderia passar por sua cabeça.
Será que é um marginal?
Será que é um homem de boa conduta?
Será que é uma boa pessoa para estar morando nessa vizinhança?
Tudo isso eu ficava imaginando, o que ela poderia estar pensando de mim.
À tarde eu voltava do serviço, e lá estava ela, parava e me observava, de pé com a vassoura em suas mãos me deixando ainda mais intrigado. Certa vez fui à padaria e lá estava ela, contou algumas moedas, colocou o pão em uma sacola, me observou e rapidamente saiu.
Os anos se passaram e comecei a me observar também, como eu agia perante essa situação e qual era minha reação quando passava perto daquele portão. Deparei-me então com algo que nem mesmo eu havia percebido até ali, descobri que eu reproduzia para aquela senhora a mesma sensação que ela me causava, e através dessa observação, comecei a perceber que as pessoas nas ruas não costumam olhar uma para as outras e se isso acontece causa certo desconforto em ambos quando não se conhecem.
De alguma forma, não sei quem começou a observar quem primeiro naquela situação.
Hoje ela não repete mais aquela atitude de me analisar todas as vezes que passo por ela, pois eu também não a observo mais e talvez as mesmas perguntas tivessem passado por sua cabeça.
Será que o fato de morar sozinha lhe cause estranhamento?
Será que sou muito velha para morar aqui sem uma família?
Será que sou uma boa pessoa para continuar morando nessa vizinhança?
Hoje nas minhas idas e vindas da padaria ou ao serviço como bom cidadão, nos cumprimentamos, dando um amigável bom dia, não causando mais nenhum desconforto para ambos.
Domingos Santos - Professor de Música na Fundação Cultural de Ibiporã
Crônica é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores. Os textos, com no máximo 30 linhas, devem ser encaminhados com telefone de contato para [email protected].





