Essa é a história de Jesuíno
Diminutivo de Jesus Menino
Na pia homenageado
Com o nome do mais sagrado.

Jesuíno nasceu especial
A vida lhe fez diferente
Mas e daí se ele não é igual?
Por que ele teria que ser como toda a gente?

Diferença nunca foi problema
A natureza de Jesuíno é amena
Tem no peito uma alma serena
Um menino como um poema.

Acontece que a vida é matreira
Não poupa Juca nem Firmino
Por que pouparia Jesuíno
De uma sorte traiçoeira?

Jesuíno, já moço feito
A mãe teve um desatino
Deus sabe se foi com dor no peito
Que disse: "tomem cá, levem embora esse menino."

De "déu em déu", Jesuíno foi acudido
Pois no mundo ainda tem gente
Com o coração condoído
Das misérias de um pobre vivente.

Não se passou muito tempo
A mãe quis de volta o rebento
Mas tanta arte ela tinha feito
Que o mal não pôde mais ser desfeito.

A Justiça disse que não:
"Essa mãe não tem condição
Seus atos estão comprovados
E estamos conversados."

A mãe deu as costas para a Justiça
Levou para Jesuíno o que ele mais gosta: salgadinho, suco e linguiça
A mãe se justificou: "é o filho que sempre amei"
Mas foi-se o tempo em que nessas plagas não se tinha nem lei nem rei.

Jesuíno foi posto sob a guarda
De um casal piedoso
Que na hora mais precisada
Demonstrou ser amoroso.

Quando chegou à nova morada
Jesuíno, confuso, sem rumo e perdido
Agarrou-se ao motorista antes que ele pegasse a estrada:
"Não me deixe aqui, meu amigo".

O motorista, jovem, mas já calejado
De ver miséria em toda a parte
Foi-se embora com o coração apertado
Jesuíno deu-lhe adeus, sem alarde.

Senhor Deus dos Desgraçados
Dizei-me, Vós, que é pura bondade
Que tudo isso não é verdade
Senhor Deus dos Desgraçados
Olhe por esse menino
Que nada tem de seu nesses prados
Nem ouros, nem fazendas, nem gados
Quiçá, um dia, terá direito a uma cova rasa
Já que nessa vida não teve nem casa.

Senhor Deus dos Desgraçados
Olhe também por essa mãe
Que precisa de ajuda urgente
Pois se fosse consciente
Não largaria o filho doente.

Senhor Deus dos Desgraçados
Não abandone esse menino
Que não cometeu erro nem pecado
O nome dele é Jesuíno
Diminutivo de seu Filho Menino.

*Esses versos são fictícios. Qualquer semelhança com fatos ou personagens da vida real terá sido mera coincidência.

Maranúbia Barbosa Doiron é doutoranda em Estudos da Linguagem na UEL, e mora em Pitanga

Crônica é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores. Os textos, com no máximo 30 linhas, devem ser encaminhados com telefone de contato para [email protected].

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