É domingo nesse momento, quando me vejo com um monte de papel ao lado do banco onde está pousada a terra. Você jamais saberá ao certo com quantos minutos se constrói um surdo decorrer de muitos anos. Surdo no sentido de não emitir sons, como uma pancada surda. Como quando aquela bibliotecária velha disse: você não pode emprestar esse livro, pois tem classificação de idade, e jogou o livro na mesa com um som surdo. Era Kant. Eu juro que nunca mais voltei a biblioteca municipal. Bom, minto, eu voltei e peguei a biografia do Robespierre do Guilleman.
Mas o som, o som era esse mesmo que reconheço no decorrer desses muitos anos, como algo que cai. Decorrer, talvez seja correr sempre, contínuo, ou de algo que corre pra algum lugar. Não estou fazendo uma análise, é só domingo, ora, e domingo é dia de falar sobre coisas que não sabemos ao certo, e olharmos para os olhos desses amigos surdos, que sorriem, e ficar no banco com papéis lembrando da cara amarga da velha bibliotecária, pensando que só era Kant. Santa paciência, não era um livro sobre como fazer bombas com nitrogênio era só Kant, e depois eu peguei o Robespierre, consegue entender isso, é risível não é.
Agora eu faço cera nesse banco por todos esses anos. Faz sombra como na rodoviária da Barra Funda, e aquela moça de blusa amarela que embarcou para Manaus, tão longe, o que fazer em Manaus. Talvez alguém a espere com a janela aberta em uma tarde de chuva, e quando ela chegar no portão haverá um sorriso meio janela meio porta, que virá dar um abraço e dizer: enfim, vivo! Ou talvez seja mais sério, talvez alguém a espere em um leito de morte, esperando com a janela aberta em uma noite de nuvens espessas e vento, e quando ela chegar pela porta haverá um silêncio na pele fria de seu rosto, e ela terá lágrimas para cair, e um abraço lhe dirá: enfim, morro! Ou talvez ela só estivesse voltando de férias, eu penso demais, sou um tolo, um pacato tolo nesse banco pensando que era só Kant e na blusa amarela da moça de Manaus que não tinha ninguém.
Eu me lembro que ela me pediu algo antes de partir, era uma quinta feira à noite, ela sorriu e disse: não posso mais sonhar. Não havia nem sorriso meio janela, nem aqueles aparelhos de UTI, nem Kant, nem Manaus, só havia um monte de pessoas nos bares ouvindo e bebendo, e eu não consigo me esquecer disso, pois é como aqueles versos que grudam e queimam, e depois de um certo tempo enjoam. Eu estou enjoado dessa noite, estou enjoado desse adeus, estou enjoado desse domingo, eu quero algo novo, um alguém novo, que vista uma blusa amarela e que venha a mim até Manaus, e eu estarei na janela, meio esperando para viver, e quando ela chegar no portão com um sorriso tímido, eu lhe darei um abraço e lhe direi: eu te amo, apenas te amo, não importa domingo, nem Kant, nem quinta-feira a noite, é só amor, só o mais simples e comum, amor...

André Luciano de Oliveira é jornalista em Santo Antônio da Platina

Crônica é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores. Os textos, com no máximo 30 linhas, devem ser encaminhados com telefone de contato para [email protected].

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