CRÔNICA
Respirava lentamente e com tanto egoísmo, querendo que todo o ar entrasse em seus pulmões, que não sobrava nada para ninguém
Não vivia muito longe daqui e, talvez por isso, a mão de ferro dele alcançava facilmente qualquer pessoa que se aproximasse dos seus domínios. O rei mudo tinha o rosto inflexível. Respirava lentamente e com tanto egoísmo, querendo que todo o ar entrasse em seus pulmões, que não sobrava nada para ninguém.
Aos poucos, os que queriam sobreviver fugiram daquele lugar - uma maneira sutil de expulsão, o que não causava nenhum dano à consciência do rei mudo.
Predador do próprio bando, já que esquecia que também era gente, ele foi construindo o seu império, sentindo cada vez mais vontade de engolir o ar que, na sua prepotência e engano, não poderia dividir com mais ninguém.
Um dia, uma rainha estrangeira, que não imaginava o quanto o rei mudo e tirano fazia os outros sofrerem, sufocados pela falta de oxigênio, encontrou algum encanto naquele rosto imóvel, sem sorriso, indescritível, tristonho.
Pediu aos inventores do seu reino que criassem um imenso aspirador de ar, armazenando exigênio em grandes cilindros. Ordenou também que construÍssem uma bolha, canalizando todo o ar para o ambiente estéril, sem gente viva, onde os dois poderiam morar.
A rainha acreditava, ingenuamente, que estariam a salvos com todo o oxigênio do mundo e que se danassem os outros fora da bolha.
Porém, o plano da monarca foi mal calculado. Com todo o ar canalizado não houve tempo para que o casal entrasse na bolha, morrendo também o rei e a rainha. Moral da história: pode virar vítima quem se arroga de predador do próprio bando.
Francismar Lemes é jornalista da Folha de Londrina





