No começo era assim: uma vez ou outra, em um dia e outro, apenas. Ela ligava, o outro correspondia, e assim ficavam. Sem laços, sem trocas, sem compromissos. E ambos sabiam: seria assim porque ambos queriam assim. Quase que firmaram dias fixos: terças e sábados, se não houvesse outro compromisso de um ou de outro. Mas não o fizeram: seria transformar aquela coisa que servia de fuga do cotidiano em cotidiano. E para onde fugiriam, então? Qual seria o próximo passo? Carteira assinada, férias, descanso semanal, vale-alimentação e toda a burocracia de presente de Natal, Dia dos Namorados, Páscoa.
Até aqui não havia nada disso. Apenas um presente, uma lembrancinha, no aniversário, vez ou outra, às vezes esquecido no dia, mas recompensado na semana seguinte, o próximo encontro. E seria a mesma coisa do anterior: um telefonema, estou em casa, pensando em ver um filme, As horas, quem sabe, me deu uma vontade, tá afim? quer companhia? quer vir? levo algo? você quem sabe, um vinho. E isso abria as portas para os pedidos e fechava as janelas das dúvidas: ambos estavam a fim, ambos queriam, apesar de um ter sido quase noivo, a outra ter sido casada há muito anos, aos dezoito. Engravidei e meu pai exigiu casamento. Casamos. Não durou um ano. Mas viramos amigos, e vi que isso era bom. Na época ainda trabalhava como secretária. Com isso, o banco me promoveu e virei caixa. Viu? Sem esse filho eu não seria gerente hoje... Sei lá, vai saber.
Do outro, não se sabia quase nada. Apenas que era corretor, que trabalhava de terno, pois vez ou outra chegava de terno. E ambos gostavam, no começo porque ela se sentia domada, e outro domador; depois porque ela se sentia protegida, o outro, protetor.
Acontece que em determinado dia um não pôde ir, e outro ficou só. Depois de tantos sins, um não, desculpe, hoje não posso, compromisso marcado, há tempos, não posso faltar, mas eu queria. Sentiu que era mentira, e esse pressentimento perseguiu por horas, até que pegou no sono, taça de vinho, cigarro apagando no cinzeiro, sozinho, e o céu tão escuro que quase não se podia imaginar ali estrelas.
Dois dias depois, o outro ligou para se desculpar, ou não, talvez nem pensaria que precisaria. O outro não atendeu. No outro dia, também não. E no outro, no outro. Até que um parou de ligar de tanto que o outro não atendeu. Nunca mais se falaram. Amor tem dessas coisas: vez ou outra pode não exigir compromisso, mas sempre se magoa com um não.

Ricardo Augusto de Lima é estudante de pós-graduação em Londrina

Crônica é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores. Os textos, com no máximo 30 linhas, devem ser encaminhados com telefone de contato para [email protected].

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