Era meu último dia de férias. Em virtude do uso excessivo, minha máquina fotográfica apresentou um defeito e foi-me indicada uma loja de assistência técnica no Centro Comercial.
Quanto tempo fazia que não entrava ali! Como não sabia bem onde estava a tal loja, fui devagar, observando cada placa nas portas. Havia vários salões de beleza e uma barbearia onde o barbeiro, sem clientes, tirava uma soneca. Também havia uma sala vazia, cheia de pó e trastes abandonados. Uma luz tênue mostrava a poeira buscando repouso.
Não pude deixar de perceber o ladrilho por onde caminhava. Aquilo me levou de volta à infância. Detive meu olhar em um armarinho, feito aqueles de cidade do interior, onde com certeza se vende de tudo. A vendedora era uma senhora oriental e atendia uma garotinha. Foi impossível não reparar na paciência que tinha com a pequena cliente. Contando e recontando suas parcas moedas, a menininha queria comprar prendedores de cabelo. Pacientemente, a vendedora fazia e refazia os cálculos para que a cliente ficasse satisfeita com suas aquisições, mesmo sabendo que lhe renderiam apenas alguns trocados. Após dispensar toda a atenção para a vaidosa garotinha, voltou-se sorridente e veio atender-me.
Achei exatamente o que buscava - uma sombrinha - mas percebi que ali não se aceitava cartão de crédito. Eu não tinha o dinheiro suficiente mas possuía um talonário e perguntei se aceitava cheque. Diante da resposta afirmativa, preenchi o cheque e entreguei-lhe, preparando-me para informar todos os números que sabia de cor mas ela não quis saber de nada e guardou o papel. Sem saber o que fazer, disse-lhe que o cheque era bom pois eu trabalhava no banco havia muito tempo.
- Ah, sim! Confio na senhora!
Numa cidade daquele tamanho, nos dias de hoje, como ela poderia confiar em alguém que nunca vira? Tive ímpetos de abraçá-la por ser tão gentil. Por fazer as coisas exatamente como devem ser feitas: com simplicidade e amor.
Não pude deixar de pensar na Célia Musilli, que se achava trouxa tendo que pagar por serviços que ela mesma tinha que executar. Será que ela conhece essa senhora? Creio que sairia de lá com o mesmo nó na garganta, mas feliz da vida em saber que existem pessoas verdadeiramente humanas e em quem se pode confiar.
Marilza Ribeiro Longhi é bancária e mora em Ibiporã

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