CRÔNICA - Um lugar chamado Natal
PUBLICAÇÃO
domingo, 24 de dezembro de 2006
Francismar Lemes<br>Reportagem Local 
Uma lógica ajustada ao tamanho de quem ainda olha o mundo dos adultos de baixo para cima e que, por conta dessa perspectiva, não sofre com as vertigens da altitude da vaidade, vanglória e outras miudezas da maturidade, é capaz de propor que o Natal não seja um dia, mas um lugar.
O otimismo e a nostalgia conferidos à festa natalina faz lembrar que alguns que já alcançaram as alturas da vida adulta, que proporcionam muitos prazeres e invariáveis tombos, não esqueceram lá trás, na infância, um pingo de gente, que consegue acreditar nessa delirante fábula.
Um conto de Natal sempre tem o poder de arranhar o nosso coração - ainda que o músculo, na suposição poética, guardião dos sentimentos, esteja vitrificado.
Por isso, o fantástico repertório das fábulas é o atalho que nos levará ao lugar chamado Natal.
Nesse lugar moram todos os que amamos porque, inexplicavelmente, essas pessoas são convidadas para serem lembradas no Natal por uma moça, com nome delicado e que apenas ao ser pronunciado já aperta o coração: saudade.
Na fábula do Natal, que virou um lugar, haveria uma sapateira na entrada para que todos que chegassem, pudessem deixar os calçados e se sentirem livres de preconceitos, onde ninguém saberia a quem peertenciam os sapatos ou sandálias.
Também seriam desconhecidos os dedos apertados num coturno ou os que são vítimas da cobiça dos mocassins alheios.
Como o Natal não seria um dia, mas um lugar, poderia ter uma qualidade: a eternidade, residência das coisas boas, que não acabariam nunca.
Os contos não sobreviveriam sem os heróis e anti-heróis, mas se o Natal se tornasse um lugar, os vilões ficariam do lado de fora e ninguém teria medo de nada.
É mais ou menos assim que imagino um lugar chamado Natal, onde o Papai Noel, não seria invenção de uma fábrica de refrigerantes para vender seus produtos em embalagem de sonho.
Nesse lugar, o Papai Noel, Santa Claus ou outro nome que o aproximasse mais do verdadeiro sentido do Natal, conseguiria entender, facilmente, as preocupações de todas as crianças, como a de uma menina chamada Alannys Victória:
- Mãe, eu pedi para o Papai Noel uma bicicleta.
- Este ano, nevou muito no Pólo Norte e o Papai Noel não conseguirá descer com seu trenó de renas em nossa casa, contornou a situação, a mãe da garota.
- Como assim, mamãe? Então não é verdade que o Papai Noel não esquece de ninguém
- Eu não disse que o velhinho esquecerá de você, minha filha. Quem sabe, o Papai Noel lhe traga uma bicicleta usada, mais uma vez, a mãe tentou sair do aperto que as crianças costumam colocar os adultos.
- Ah, mamãe...Assim não dá! Além de velha vou ganhar uma bicicleta quebrada..., lamentou a menina.
- Não estou entendendo o que você quer dizer com ''bicicleta quebrada'. Eu disse que você ganhará uma usada
- Mamãe. É lógico que a bicicleta vai chegar quebrada porque aquele gordo do Papai Noel virá montado em cima dela, ué''!, afirmou a menina do alto de sua lógica de quem vê a imensidão e singeleza do mundo de baixo para cima.


