Filha da minha alma, hoje tenho que fazer algo que torci para que demorasse muito: o momento de largá-la para que outro cuide com amor.
Acordei pensando naquele dia no Bosque onde lhe ensinava a andar de bicicleta e aos poucos retirei as rodinhas. Com medo pedia que eu a segurasse e depois de um tempo a soltei, e agitada dizia: "papai não me solta!" E eu já havia te largado e conseguiu manter-se pedalando sem mim.
Confesso que tive receio de haver uma queda, porém foi necessário te deixar seguir só. Naquele instante não percebi que não largava só a bicicleta, mas as rédeas de sua vida para que seu voo solo tivesse início.
Você sempre foi meu "grude", aproveitou nossa volta da lua de mel e veio dentro de sua mãe, alertando que não nos largaria facilmente, mas... chegou a hora!
Tantos momentos mágicos que desfrutamos com muita intensidade em nossa casinha: seu medo dos meninos da rua cortarem a nossa arvorezinha de Ipê branco para fazerem uma forquilha. E o nosso balanço em frente da casa que os meninos levaram, e eu tentando te consolar disse: "deixa filha, posso fazer outro. Eles não têm um pai para fazer para eles". Foi uma tristeza só. Nossos "rachas" de carrinho de rolimã no "Monte Everest", as pipas que insistia em colar, mas suas mãozinhas pequenas e sem habilidade (hoje confesso, me irritavam um pouco) não conseguiam sem furar a seda, e aquele campeonato da menor pipa, lembro que teve muito orgulho do seu pai vencer, sem apresentar a menor que estava no meu bolso, e me olhava toda feliz.
Eu era seu tudo, seu mundo girava em torno de seu falho pai que procurou até hoje te conduzir de maneira ética e buscando fazer-te uma mulher carinhosa e generosa. Não fui o melhor pai da Juvenal (nossa rua), mas fui o melhor que conseguia ser.
Bem, mais isso e muitas outras estripulias que deixavam sua mãe de cabelo em pé são retalhos de um passado mágico que queria eu eternizar se assim pudesse, mas a vida segue e hoje deixarás seu primeiro amor para se casar com o homem que esperou no Senhor um tempo longo, que para mim foi tão curto...
Quando estiver te levando para o altar de Kombi não vou conseguir ser forte, certamente chorarei de emoção, mas estarei feliz sabendo que "Como flechas nas mãos de um homem poderoso, assim são os filhos da mocidade".
Vai em paz, vou ficar bem, e se possível volte com um netinho para que eu possa ensiná-lo a soltar pipa...

Valdir Flora Batista é teólogo e empresário em Londrina

Crônica é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores. Os textos, com no máximo 30 linhas, devem ser encaminhados com telefone de contato para [email protected].

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