Foi num hotel em Uberaba que me deparei com um modelo de telefone antigo. O ''dinossauro'' me fez sentir um gostinho de infância, porque me fez relembrar de como era a vida há pouco mais de duas décadas. Para ligar para alguém, era preciso colocar o dedo no furinho correspondente ao número desejado, girar até o limite e esperar o disco voltar sozinho para a posição inicial. O movimento se repetia por mais seis vezes, já que os números telefônicos somavam sete algarismos. E quando a ligação era interurbana, subia para dez. Não havia essa variedade de operadoras. Hoje, somos escravos dos algarismos, das vírgulas, e precisamos fazer cálculos antes de discar os treze números para efetuar uma ligação para outra cidade.
No entanto, a diversão acabou quando percebi que aparelho não funcionava. Acostumada com o ritmo dos teclados acabei desistindo de ligar do telefone fixo. Os dedos já estavam cansados do movimento repetido de girar o disco de plástico. Meu celular estava fora de área e tive que recorrer à operadora da minha amiga para mandar um torpedo e me livrar daquilo que parecia um complô dos telefones. Foi o ''sinal de fumaça'' enviado pelo celular da Mariana que resolveu meu problema de comunicação.
Os minutos que passei com o gancho pesado na mão pareciam uma eternidade e foram propícios para uma reflexão. Mandar uma mensagem escrita seria a última alternativa, já que a minha vontade era de conversar, para contar para o meu marido como tinha sido a viagem. Fiquei pensando em quantas vezes temos condição de ligar para alguém, mas recorremos ao SMS para economizar tempo e dinheiro.
Depois da invenção da internet e dos torpedos ligamos menos para as pessoas, mesmo para aquelas de quem gostamos muito. Preferimos escrever mensagens desejando Feliz Aniversário ao invés de ligar. Acreditamos que pessoa vai se sentir lembrada e não poderá nos culpar porque esquecemos a data. Afinal, o trabalho - que aumentou proporcionalmente às invenções tecnológicas - justifica nossa ausência. E assim a humanidade se movimenta, conduzida pelas fibras óticas e pelo wireless.
Pode ser que eu esteja um pouco retrógrada, mas ainda sou a favor das conversas jogadas fora no telefone. Adoro quando o telefone toca num final de semana e sou surpreendida com a voz de uma amiga que não vejo há algum tempo e de quem só tenho notícias por e-mail. Gosto até da conversa monótona com meus avós, quando eu ligo simplesmente para saber como eles estão. No final da ligação, sempre abençoam o meu dia, que fica bem melhor quando escuto logo de manhã a voz de uma pessoa querida.
Giovana Chiquim é jornalista em Londrina

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