CRÔNICA - Sou ou estou?
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 24 de junho de 2008
Carlos Eduardo Lourenço Jorge 
Nosso idioma pátrio, português ou brasileiro, sabe-se lá o que falamos exatamente, diferencia o estar do ser. São dois verbos distintos. O inglês engloba no genérico to be as duas acepções, e provoca equívocos hilariantes que os gringos cometem com muita frequência quando estão aprendendo nossa florida e romântica língua. Ouvem-se coisas como ''sou contente'', ''sou fora'' ou ''estou tarde''. Nós, lusófonos ou brasilófonos, tanto faz, distinguimos bem as possibilidades idiomáticas.
Mas há momentos na vida em que a pergunta que não quer calar é se somos ou estamos.
Como agora, na iminência de iniciar minha sétima década de permanência neste planeta já nem tão adequadamente habitável - atenção, eu disse sétima, façam bem esta conta. Sou velho? Ou estou velho? Senão vejamos.
Por que não posso memorizar os números de celulares, e em troca não tenho problemas com os fixos? (às vezes é o contrário...) Por que me incomodam tanto os mastigadores de pipoca nos cinemas, que produzem em grupo um detestável ruído, mistura de chocalho com serrote? Por que não me lembro de nenhum intérprete ou banda de rock ou rap ou reggae ou funk que tenha menos de vinte anos de trajetória? Por que pergunto onde anda meu chaveiro quando está na minha mão? Por que apaguei o registro de rostos e passo até vergonha ao não reconhecer pessoas com quem jantei, conversei ou discuti durante um respeitável número de vezes? (Tudo bem: não são íntimos, não são companheiros de uma vida e nem parentes, e até se escondem atrás dos insulfimes - mas por que me parecem totalmente desconhecidos, quase extraterrestres ?) Por que são cada vez mais estúpidas e intoleráveis as mesas-redondas na tevê ou fora dela, onde são debatidos temas da atualidade? Por que sou nostálgico de coisas que não vivi? Por que me lembro de uma longínqua e feliz Praça Raul Soares na Belo Horizonte dos confins de minha primeira infância no início dos anos 1950, e tenho certa confusão quando trato de recordar qualquer coisa que se passou há apenas um ano? Por que me acostumo a ouvir coisas estúpidas e a não respondê-las? Por que começo a me esquecer do motivo de antigas rixas com pessoas que não cumprimento há anos?
Poderia seguir enumerando perguntas inquietantes até o infinito. Contudo, devo reconhecer que lidar com estas questões é um retrocesso. Uma décadence sans élegánce. Assim, decidi transformar este período que antecede minha passagem ao rol dos sexagenários, este tempo que os astrólogos classificam ameaçadoramente como inferno astral, em inverno austral, coisa bem mais amena e frugal.
E decidi mais: não sou velho, estou velho. Velho para fingir, velho para esconder o que penso de toda formalidade, velho para aguentar o que me parece estúpido, ilógico ou patético, velho para suportar a mínima prepotência e velho para recordar informações inúteis sobre fatos que não têm a menor relevância. E sou velho para todo o resto. Coisa que, pra falar a verdade, não me chateia nem um pouco, colesteróis bandidos ou mocinhos, crônicas de hérnias, pressão e descompressão, tudo isso tiro de letra. Me incomoda o crunch-crunch das pipocas? Mudo de poltrona e tchau. Não me lembro como se chama tal e tal dupla sertaneja? Com toda a certeza porque não me interessa o mau repertório, a desafinação e a breguice que carregam.
E enquanto puder seguirei conversando sobre bom cinema pelas mesas de bons bares e bons restaurantes - são poucos em qualquer lugar, sei disso, mas até existem. Seguirei respirando o bom ar que ainda paira aqui na cidade e em outras, mundo afora. E seguirei pensando que ser velho ou estar velho é uma questão de matizes, e que o mais importante na vida é abrir os olhos pela manhã e saber que alguém lá em cima ou em algum canto da eternidade gosta de mim e me presenteou com mais vinte e quatro horas.
CARLOS EDUARDO LOURENÇO JORGE é jornalista e crítico de cinema


