Venho lhes falar sobre um homem. Já idoso, já ranzinza. Embora a última, devo escrever com sinceridade, não tenha sido uma característica adquirida tanto no passar da idade quanto no próprio nascimento.
Desde sempre Antônio foi conhecido por sua extrema rigidez. Homem de assuntos sérios, reservava piadas para ocasiões raras, onde se reuniam apenas os comparsas íntimos, a quem ele chamava por ''cabras''. Sabe-se lá por quê, afinal Antônio era mesmo um sujeito peculiar.
Seus descendentes, educados por seu severo sistema, de início reclamavam. Espiavam os vizinhos brincando pela calçada e imaginavam quão divertida seria a experiência de ter um pai que fosse ao menos um pouco divertido. Eles, como nada desejavam, eram forçados a trabalhar na vendinha de materiais para construção de Antônio, ofício que facilmente conquistaria o ódio de qualquer criança.
O que não sabiam, seus filhos, era que rigidez na criação derivava da linhagem familiar, portanto não havia grande coisa que papai pudesse fazer para que seu DNA fosse alterado.
Com o tempo, acostumaram-se a ele. Cresceram, regaram dentro de si a flor da genealogia e como consequência o amor pelo pai prosperou.
Passaram a abrir os ouvidos quando ele lhes contava um pouco de sua história. De infância sofrida, papai havia aprendido sozinho a ler e também a escrever, no momento em que sentiu vontade. Sua inteligência não era muita, se comparada ao tamanho de sua determinação. A ortografia era imperfeita, todavia quanto ao entendimento não se encontrava erro algum.
Sonhava em pintar, porém a negatividade familiar lhe fizera perceber que se algo não trouxesse dinheiro, ao mundo não possuía valor. Tornou-se, portanto, homem de sonhos materiais e, por conseguinte, pequenos.
Antônio anda hoje com ajuda de uma bengala, enquanto ainda ontem tirava moças para dançar nos bailes da vila. E a maior riqueza que ainda carrega é a que se traduz através da sua capacidade humana de sentir, apesar da fortuna advinda dos tremendos comércios de que se tornou proprietário.
Antônio, já enrugado, descobriu-se agora portador de câncer.
Seus filhos, se ainda sentirem qualquer inveja de pais alheios, esta se resumiria ao aspecto de saúde perfeita a que desejariam que também Antônio ainda tivesse. O pai que tinham, por fim perceberam, era de seu grosso modo o melhor.
Na posição de sua neta, dei-me conta hoje de que cada passo dado por seus pés poderia ser posteriormente visto como aprendizado. E tomado como verdadeiro exemplo.
Estou certa de que da doença também tirará uma lição. E presente estarei eu, ansiosa por narrá-la. Com o orgulho familiar que carrego em cada célula do meu ser.
Parabéns, avô!, digo, sem sequer precisar que seja seu aniversário.

Ana Carolina Romero é estudante em Itambaracá

mockup