Por mais que tento prestar atenção, disperso-me. As palavras que saem de sua boca se diluem no ar, começo a navegar no verde-mar dos seus olhos. Volto à realidade num corte abrupto, quando você me indaga sobre alguma questão. Concordo com você sempre, mesmo porque já me perdi há tempos em seu monólogo, quando suas palavras se dissolveram em música, no exato momento que um raio de sol atravessou a janela; iluminou o seu rosto, deixando os seus olhos esverdeados. Perdoa-me pela minha desatenção, porque o seu discurso tem conteúdo, e você não é apenas mais uma superfície bonita sobre uma carcaça vazia. Pelo contrário, seu interior tem a intensidade de uma supernova, enquanto seu exterior foi esculpido por um artista celeste. A providência divina lhe concedeu tantos atributos, eu não consigo nem mesmo me concentrar. Por mais que o assunto exija seriedade, encontro-me aqui vendo poesia em seus olhos.

No entanto, você sabe que eu não tenho jeito mesmo, gosto de brincar com as palavras no papel, enquanto as palavras balbuciadas pela minha boca, diante de ti, não emitem som algum. Gostaria de debater com você esses assuntos técnicos e intelectuais, mas você percebe o quanto fico intimidado em sua presença e agora sabe o porquê. Prometo esforça-me para não divagar à sua frente, é uma falta de educação de minha parte, mesmo que tenha motivos nobres, como essa tentativa de lisonjear a beleza de seus olhos através dessa prosa lírica.

Sem pretensão alguma, essa crônica é apenas um singelo pedido de desculpas pela minha cara de bobo à sua frente. Sem cobiça alguma, apenas tenho a crença de que o belo deve ser louvado, e os bons sentimentos devem ser guardados em folhas de papel como esta. E por que não entregá-los à musa que os proporcionou?

Ricardo Chagas é professor em Ivaiporã

Crônica é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores. Os textos, com no máximo 30 linhas, devem ser encaminhados com telefone de contato para [email protected].

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