Já ouvi dizer que todo (aquele que se acha um) cronista tem seu dia. Inevitavelmente ele chega. Arrebata a inspiração e o faz rabiscar páginas e páginas do que poderia ter sido e evidentemente não foi. E como não costumo fugir às regras, eis que chegou o meu dia! Falar da falta de assunto - convenhamos - parece até coisa do velho Braga, mas é a verdade... Desde a manhã, sofro com a idéia de nada ter a dizer.
Entrei no ônibus lotado. Mesmo desanimada, procurei algo de que poderia sair-me uma crônica... Que ilusão! Nada que a valesse. E depois, este negócio de lotação deixa o passageiro sem jeito, não é daí que surgem os bons textos. Bem que eu poderia começar mais o menos assim: ''Andar de ônibus é sempre um divertimento, ainda mais quando está repleto de passageiros''. Não. Não, o leitor que anda de ônibus me acharia irônica, e eu não quero parecer inverossímil.
À tarde, no trabalho, alguém se lembrou de assoviar um samba-enredo, demonstrando intimidade com o ritmo e, por que não, com a letra. Foi então que pedi:
- Ô, Pedro, canta um pedacinho da música pra eu lembrar, por favor.
Na realidade, conhecia a canção, só estava mesmo interessada em escrever sobre o ato: alguém que assovia ''Explode Coração'', na maior felicidade..., enquanto trabalha para receber um salário nada cristão. Nova desilusão! Achei que uma crônica sobre os baixos salários, além de monótona, poderia lembrar artigo político, irreverência, pessimismo ou coisa que o valha! E que tem isso a ver com o samba?
É noite. Se ao menos uma lua branca ofuscasse as lâmpadas da rua, eu poderia escrever algo sobre o luar... Acho que estou ficando muito romântica para o momento em que vamos... E então? Ninguém observa a palidez da lua no século XXI? Mais rabiscos... Ridículo!
Ora, não era nada disso que eu tencionava dizer... é que esse brilho penetra a alma; mas estou lúcida, não sou poeta, nem leio nada da belle époque. Para o bem do leitor, vai passar. Assim espero.
RITA MARTELINI - Professora de inglês em Londrina; participou do Concurso de Contos, Crônicas e Poesias Dedic Escreve, em São Paulo (2004 e 2005), quando publicou o conto ''Olhos de Vidro'' e as poesias ''Você'' e ''Todo Amor''.

Crônica é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores. Os textos, com no máximo 50 linhas, devem ser encaminhados com telefone de contato e foto para [email protected].

mockup