Às vezes vejo meu avô cortando fumo de corda. Raramente penso sobre o quanto aquilo possui um valor para ele, uma beleza, um sentimento que ele guarda pra si com medo de ninguém compreendê-lo. Menos ainda é o tempo que paro pra pensar que, quando não obstante essa geração do meu avô se extinguir o fumo de corda tenderá a se acabar, sumir do mapa, virar lenda, ocupar páginas de livros e fotografias de museus.
Adélia Prado, divina poetisa, mulher, brasileira, saudosista e amante, sempre faz questão de me lembrar o quanto a fluidez do mundo nos deixa à mercê da saudade, fluidez essa que alguns insistem em chamar de dinâmica social, tão corrosiva dinâmica que vai levando tudo feito roda-viva.
Em um de seus poemas Adélia nos lembra sobre a beleza e a simplicidade de viver no interior. O domingo no interior é encantador, com as bicicletas, as laranjas descascadas desapressadamente embaixo de uma árvore, o aro, o sumo da laranja, o bagaço da laranja, o cheiro dela.
Ah, o cheiro da laranja. Isso se chama mesmo saudade. O progresso tecno-ilógico, dito num tom fortemente crítico por Adélia é o progresso que abafa o sentimento humano, que nos faz sentir necessidade de mudança sem ao menos decidirmos por ela.
A laranja já não se colhe mais do pé, o fumo de corda quase não se encontra por aí. Já não se vê bicicletas e seus aros enfeitados, não se vê pessoas conversando na calçada, não se perde tempo, não se vê o tempo. Nesse momento de progresso, onde a querida Adélia preferiria nem tem vivido, o homem progride a caminho da morte, contando dinheiro, engravatando e enfeitando os seus.

Walmor Chagas Fermino de Oliveira é professor em Conselheiro Mairinck

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