Ele era para ser talvez um engenheiro? Um arquiteto? Um médico? Um pastor? Um músico?
Era o seu primeiro vestibular. Era a sua primeira namorada. Era a primeira carteira de habilitação.
Certificado de reservista tinha acabado de tirar. Era o seu primeiro emprego. Formatura do ensino médio. No ano anterior seu primeiro voto para presidente.
Dessas coisas poucas teve tempo de realizar. Vestibular não fez. A habilitação não tirou. A permissão para o namoro não pediu ao pai da garota. O emprego ficou para outro. Churrasco de formatura cancelado.
Seu teclado silenciou. Era para ser somente mais alguém que passou pelo mundo. Mas ele foi mais do que isso para a sua família. Foi um filho, um irmão, um neto, um sobrinho.
Até aquele momento era o único filho homem, era o caçula, grande irmão da única irmã mais velha. Filho pedido, irmão desejado. Família completa. Família feliz.
Bebê lindo, criança esperta, adolescente sem rebeldia, sem vícios, filho amoroso, irmão carinhoso.
Felicidade ao descobrir que ia deixar de ser o único filho homem, deixar de ser o caçula, seria o filho do meio.
Mas não foi assim que aconteceu. Conheceu o irmãozinho através de um ultrassom.
Era para ser um aumento na família, mas tudo continuou igual: quatro.
Era para ser um dia como outro qualquer, mas foi o dia em que de repente tudo isso se tornou passado.
Ele se foi aos dezoito anos. Parada cardíaca, morte súbita... Espanto no olhar de todos ao ouvirem a notícia. Incredulidade de quem o tinha visto pela manhã, à tarde, à noite.
Saudade... imensa... por parte da mãe... do pai... da irmã... do irmão que não o conheceu, ele ainda estava no ventre.
O que era para ser um acréscimo acabou sendo não um substituto, mas aquele que preencheu o vazio.
Aquele que se tornou o arco-íris depois da tempestade. Aquele que trouxe ''alegria e felicidade a muita gente...''(Lc.1:14,15)
Alegria ao seu pai, à sua mãe, à sua irmã. Alegria no seu sorriso, felicidade nos seus cachinhos dourados e sobretudo uma semelhança incrível com aquele que era para ser o melhor irmão do mundo.
Audrei Celia Moreno é dona de casa em Londrina

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