CRÔNICA - Saudades da época do grupo escolar
Estava vendo fotos antigas de Londrina, da década de trinta. Uma das fotos mostra trabalhadores em volta do tronco de uma enorme figueira que eles tinham acabado de derrubar a machado. Isso mesmo, a machado, pois naquela época não existia a motosserra, a ferramenta moderna usada pelos devastadores de mata que estão acabando com a floresta Amazônica.
Nos dias de hoje não dá para imaginar que árvores enormes como as que existem no Bosque Central foram cortadas a machado, quando não, com o uso de trançador, serrote enorme que era manejado por duas pessoas.
Pois é, sou daquela época, nasci em 1936. Eu vi Londrina crescer, crescer celeremente movida pelo café, o principal produto que alavancava a economia da cidade. Meu pai também, um imigrante que comprou cinco alqueires de mata virgem no Córrego do Quati, e foi produtor do "Ouro Verde", como era conhecido o café.
Quando entrei no Grupo Escolar "Hugo G. Simas", em 1944, a cidade não tinha rua asfaltada, somente parte da Avenida Paraná era calçada com paralelepípedos. O trajeto todo de cinco quilômetros, da minha casa no sítio até à escola, eu fazia a pé, caminhando na estrada e ruas de terra batida. Em dia de chuva era difícil passar pela Rua Quintino Bocaiuva. Manter-se em pé naquele lamaçal e calombos escorregadios era uma verdadeira prova de equilíbrio. Como sapato nenhum resistia à chuva e à lama, todos os escolares dispensavam este luxo, andavam a pé mesmo. Só usei sapatos no dia da formatura!
Volta e meia, a minha mãe pedia para trazer alguma coisa da cidade, compras de uso geral na cozinha, como açúcar, sal, pão, carne, etc., as quais eu trazia nas costas dentro de um saco de pano. Era costume dos sitiantes transportar as compras dessa forma, pois a distância era grande. Já imaginaram uma criança vestindo guarda-pó branco, com saco nas costas, andando na lama equilibrando um guarda-chuva? Mas era divertido, a gente não reclamava de nada, e não faltava às aulas... Quanta diferença com as crianças de hoje...
Mas, o que me dá mais saudade daquela época é o jogo de bolinha de gude, conhecido como mata-mata, durante a caminhada de volta do Grupo. Muitas vezes a bolinha sumia no meio da poeira vermelha que cobria a estrada. Assim acontecendo, a gente jogava por suposição e ficava atento ao barulho da batida. Se acertasse, lógico! Chegava em casa todo sujo, e com atraso de mais de uma hora. Ainda bem que meus pais estavam na roça e não viam a gente chegar...
Toshio Icizuca é engenheiro e escritor em Piracicaba
Crônica é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores. Os textos, com no máximo 30 linhas, devem ser encaminhados com telefone de contato para [email protected].





