Dia desses, estava andando pelo Shopping Catuaí quando, repentina e tardiamente, me dei conta de um fato muito curioso: Eu nunca mais entraria pela entrada das Lojas Americanas, o shopping foi reformado. Aquela entrada, com garrafais letras vermelhas que indicavam o nome da citada loja, aquela que tinha os chafarizes onde, quando criança, eu ouvia sapos coaxando, em assombro. Aquela onde tantas vezes esperei que o carro de meu pai viesse para que levássemos nossas sacolas para casa, onde esperei amigos e colegas para ir ao cinema, onde esperei pela chegada daquele que seria meu futuro noivo, ainda nem namorado.
Ali esperei tanta coisa.
E, naquele momento, senti uma pontada curiosa no coração, algo que a princípio nem identifiquei direito, mas que me fez sorrir e ficar triste ao mesmo tempo.
Quando mais nova do que já sou, achava gozado que os mais velhos parassem diante de fotos em preto-e-branco, penduradas em algum local que nem me lembro, com o rosto um misto de sorriso e melancolia, e apontassem:
- Olha a antiga catedral de Londrina, olha filha.
- Tá vendo, onde hoje é tal rua, naquela época era só mato!
- Londrina era só café.
Qual era a graça daquilo tudo? Na minha inocência infantil, eu realmente estranhava aquele tipo de comportamento, e, entediada, esperava que fôssemos embora logo para ver algo realmente interessante.
Hoje, sou em quem paro diante de alguma foto, sou eu quem fico com os olhos marejados ao ouvir alguma música que me lembre ''daquele dia, naquele lugar''...
Sou eu quem compreende, com tristeza e alegria também, que o tempo passa, os lugares transformam-se, assim como as pessoas. Sou eu quem ri perplexa ao pensar que, por alguns lugares, eu jamais passarei novamente, pois mudaram.
Algumas pessoas, eu jamais verei novamente, pois foram-se.
Compreendo como é importante a valorização da memória, da herança, mas mais ainda do presente, para que não se deixe passar a oportunidade de aproveitar cada minuto daquilo que depois, passado o tempo, será flor no coração (ou espinho, mas os espinhos também valem a pena, ah valem).
Hoje sou eu que compreende, aos poucos, todo a força e a beleza da palavra saudade.
LIÉGE BÁCCARO é professora e pós-graduanda em Língua Portuguesa na UEL

mockup