Quando eu era criança, na década de sessenta, não havia muitas padarias em Londrina como hoje. A gente comia os doces comprados nos bares, onde vendia-se normalmente o pão e o leite. Nas vitrines de madeira e vidro podia-se ver além dos pães, uns pudins tipo caseiros, assim chamados porque eram feitos de farinha, leite, ovos e queijo ralado - uma massa básica e simples que colocada sobre uma assadeira devidamente untada com manteiga sobre a qual se punha uma quantidade de açúcar queimado ficava excelente.
Também havia a bolacha de mel que não podia faltar. Era um bolachão cor caramelo que vinha num pacotão com cinquenta delas - uma ao lado da outra. Vendia-se uma a uma. Às vezes quando o vendedor demorava a passar para vender no bar, achava-se uma meio dura, mas embora o gosto não fosse o mesmo ainda assim era gostosa. Não havia mel algum nelas mas o nome ficou. Eram doces de verdade. Também havia a queijadinha. Feita com queijo e côco. Vinha com uma forminha de papel embaixo. Ainda vejo muitas delas nos mercados em embalagens de todo tipo.
Mas o doce que quero destacar na verdade não é nenhum desses. É o a roupa velha. O nome tem razão de ser. Era feito com o resto de bolos e doces que se recolhia nas vitrines. Embora não fosse um doce dos mais higiênicos era muito gostoso. Era no formato de um quindim alto e com um pouquinho de fondant – açúcar derretido branco - em cima e logo mais um pingo de chocolate. Um doce simples que tinha um gosto comum de bolo mas o toque em cima era fundamental para a gente comê-lo com os olhos.
E quando se ia para o bar comprar pão, lá estava ele, esperando a gente com aquele pingo de chocolate em cima.
Haviam muitas fabriquetas de doces, inclusive de fundo de quintal. A higiene, naquela época, não era como hoje, e a fiscalização da saúde pública também .
O que proporcionou o fim da roupa velha não foi outra coisa senão a expansão de padarias pela cidade. Hoje cada bairro da cidade deve ter aproximadamente duas ou três padarias. E isso colocou à disposição uma variedade imensa de doces que fazem a festa aos nossos olhos. Bombas, bolos gelados, copinhos de chantilly com morango, brigadeiros, beijos-de-moça, olhos-de-sogra e muitos outros.
A base dessa disposição é justamente os balcões refrigerados que fazem com que os doces possam durar um pouco mais e além disso ficar dentro de um ambiente mais limpo que os antigos balcões de pão. Hoje a gente não sabe se repara mais na higiene do que no doce propriamente dito.
Dizem que tudo o que se come na infância nos remete às melhores lembranças. Se isso é verdade uma das melhores lembranças gastronômicas de minha infância foi aquele doce chamado roupa velha.

Dailton Martins é comerciante em Londrina

Crônica é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores.Os textos, com no máximo 30 linhas, devem ser encaminhados com telefone de contato para [email protected].

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