CRÔNICA - Rotina
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 14 de julho de 2009
Adriana Ito 
Um dia, ele apareceu em casa com uma rosa e um pedido de namoro. A rosa durou uma semana. Então ele me deu outra. E outra. Assim iniciamos o nosso primeiro hábito em comum - que já dura cinco anos.
Depois, nos acostumamos a dormir juntos e juntos, ou seja, na mesma cama e com pelo menos alguma parte do corpo em contato. Daí que, quando um acorda e vê o outro na outra ponta do colchão, precisa dizer ''tá longe'' e grudar de volta. Isso também virou rotina.
Então veio o ''te amo'' e suas variações, primeiro significando tudo, depois cedendo a pequenas ocasiões e enfim para expressar toda e qualquer coisa. ''Te amo'' às vezes significa ''oi'', ou ''tá combinado'', ou mesmo ''não seja chato''. Mas às vezes também quer dizer que o coração na presença do outro fica tão grande a ponto de apertar as cordas vocais e por isso sai esse som.
Completamos o primeiro mês de namoro com tamanho entusiasmo que foi preciso celebrar a data duas vezes. O problema é que gostamos da ideia: a repetimos mensalmente desde então. Apenas, a cada doze meses a comemoração é um pouco mais planejada.
É claro que com o passar do tempo os hábitos começaram a cansar. Depois da ducentésima rosa, foi preciso definir cada uma com um adjetivo (singela, sublime, nobre, deslumbrante) para não deixar a rosa virar sempre a mesma flor. O compromisso de todo mês comemorar aniversário de namoro - duas vezes - parece não ser tão correto: não seria melhor que fosse espontâneo?
Outro dia fomos dormir chateados um com o outro, mas nos obrigamos a pelo menos dar as mãos para não desrespeitar a nossa própria diretriz. Acordamos abraçados, sem que nenhum dos dois tivesse feito aquilo conscientemente. Os corpos é que estavam acostumados.
Nosso amor virou rotina, e na rotina cabe o cansaço porque também cabe o permanente. E a cada aniversário, a cada rosa, a cada ''te amo'' vamos encontrando novos adjetivos para o mesmo amor de sempre - isso também virou hábito.
ADRIANA ITO é repórter da Folha2 e escreveu essa crônica em ocasião do aniversário de 60 meses de namoro


