CRÔNICA - Quatro irmãos e um rio
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terça-feira, 18 de fevereiro de 2014
Nunca despreze a experiência dos mais velhos, seja sábio e desfrute-a 
Houve uma vez quatro irmãos, com suas esposas e filhos, que ganharam belos terrenos para construírem suas casas e criarem seus animais e plantações. Quando chegaram, viram que ali existia uma grande montanha e logo abaixo um enorme e caudaloso rio. Cansados pela viagem, todos foram banhar-se em suas águas, rindo e brincando feito crianças. Foram as melhores boas-vindas que poderiam desejar. No dia seguinte entraram na mata, cortaram madeira e cada um foi, junto com os seus, construir sua casa. O primeiro irmão, o mais velho e sábio, foi até topo da montanha e erigiu uma bela casinha, com espaço para uma horta e alguns animais. O segundo seguiu seu exemplo e fez sua morada logo abaixo da dele, e o terceiro, conhecendo o bom senso dos mais velhos, também construiu a sua morada ali. O quarto irmão, porém, não quis fazer a sua casa perto das dos outros. Quando perguntado por eles, disse que iria construir sua morada na bacia do rio, para poder se banhar com sua família quando quisesse, mas a verdade era que a comodidade tinha guiado a sua escolha, já que se fosse construir a casa no alto da montanha teria de subir com as madeiras, as pedras e o barro e ele não estava disposto a isto. Naquela noite, durante um sonho, o espírito do grande rio lhe avisou que era preciso sair daquele local e ir para um lugar mais elevado, pois estava se aproximando a época das cheias e nem mesmo o espírito poderia conter as águas. O quarto irmão não deu ouvidos e respondeu que os alicerces da sua casa eram muito fortes. Zangado, falou também que ele tinha certeza de que as águas não subiriam tanto a ponto de chegar onde ele havia construído. O espírito do grande rio suspirou e voltou ao seu percurso à caminho do mar sabendo que, pelo menos, tinha avisado àquele homem... Naquela noite chuvas torrenciais castigaram a região e, tal como anunciara o espírito, as águas começaram a subir. Os irmãos desceram para buscar o mais novo, bateram na sua porta e tentaram convencê-lo, mas foi tudo em vão, ele estava determinado a ficar e avisou que nada o faria mudar de ideia. Os irmãos insistiram durante muito tempo, mas no fim foram obrigados a desistir e voltaram para suas casas com o coração partido pela certeza de que o pior aconteceria. Durante dias as chuvas não deram trégua. As águas subiram rapidamente, selvagens e incontroláveis e, de suas casas no alto da montanha, os três irmãos assistiram impotentes ao trágico espetáculo da casa do seu irmão sendo arrastada pela corrente até desaparecer, desfeita pelas ondas e as grandes rochas. Ele e a sua família afundaram sem ter nenhuma chance.
Domingos Santos é musico e professor de música na Fundação Cultural de Ibiporã
Crônica é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores. Os textos, com no máximo 30 linhas, devem ser encaminhados com telefone de contato para [email protected].


