Vocês têm percebido que quando as pessoas envelhecem e perguntamos a elas o que desejam de presente de aniversário, ou de Natal, o de dia das mães ou dos pais, elas ficam um bom tempo pensando e terminam por responder que não sabem, que qualquer coisa está bem porque, afinal, o que conta é a nossa intenção e o que realmente vale é que não nos esquecemos delas?
A maioria acha que é uma questão de modéstia, ou de não querer pedir nem molestar, mas na verdade, elas não sabem mesmo... Isto eu sei porque está começando a acontecer comigo.
É que a gente gostaria de pedir saúde, tempo, lucidez, o carinho sem restrições dos outros à medida que vamos nos tornando mais frágeis, participação, contribuição, cuidados e respeito, mas como infelizmente estas coisas não estão à venda em nenhuma loja, então o que nos resta é confiar em que fizemos o suficiente para que os outros nos deem isto por iniciativa própria.
A partir de uma certa idade e experiência de vida, realmente já não mais se desejam coisas materiais, pois a gente vai percebendo que elas não têm tanta importância assim.
É claro que é bom e agradável ter comodidades e mimos, mas aos poucos isto vai perdendo o valor, talvez porque nos damos conta de que nada material poderemos levar daqui. Todas as coisas vão ficar, não vão mais ser nossas, não importa o quanto gostemos delas nem o significado que tenham para nós.
É então que começamos a procurar e apreciar o intangível, os sentimentos, a qualidade de vida física, psicológica e espiritual, pois isso sim vira algo valioso que pode nos acompanhar e ser útil em nossos últimos momentos, que pode fazer com que o tempo que nos resta seja agradável e cheio de carinho, pode nos fazer sentir seguros e amparados, e quando se viveu muito e se desfrutou das coisas materiais, em maior ou menor grau, então é chegada a hora de desfrutar as espirituais, pois um corpo velho e cansado, cheio de achaques e limitações não precisa de um sapato último modelo, um computador novo, um carro mais veloz ou uma casa maior e mais luxuosa.
Não, este corpo, este coração, precisam de acolhida, de abraço, de paciência e respeito. Os nossos legado, no fim das contas, não serão as coisas que acumulamos ao longo da nossa existência, mas os nossos exemplos.

Paz Aldunate é professora, escritora e artista plástica em Santiago (Chile)

Crônica é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores. Os textos, com no máximo 30 linhas, devem ser encaminhados com telefone de contato para [email protected].

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