CRÔNICA - Porque voltei a escrever
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terça-feira, 02 de setembro de 2008
Rita Martelini 
Era apenas um bate-papo informal na internet, algo para relaxar e descontrair. Ele, português, agradável e bem-humorado; eu, desanimada e há muito tempo sem escrever (sem contar que me sentia exausta naquela tarde de domingo). De repente, a conversa enveredou para as letras - e a essa altura já ríamos muito das diferenças linguísticas entre os dois países... Essa coisa de ''estar a fazer, em Portugal, é mesmo engraçada; mas ao menos assim foge-se do tal gerundismo, última moda por aqui''.
Foi quando me lembrei que já havia escrito uma crônica - pelo menos a enquadraram assim - e resolvi enviá-la ao meu amigo lusitano. Imediatamente, imaginei a reação de Armando (esse é o nome do meu amigo) quando a lesse: ''Ora, pois, quantas coisas esquisitas que estás a dizer''. Para a minha surpresa, nada disso ocorreu. Sim. Eu pensei em críticas; sempre espero por elas. Mas não; não vieram, ou melhor, não da forma que eu as imaginava. Armando apenas observou:
- Tu a escreveste em 2004?
Sim, eu a tinha escrito em 2004, mas o que isso tinha a ver? Antes que eu atinasse com o significado daquela pergunta, outro comentário:
- Acho que tu não devias parar de escrever nunca.
Talvez a minha ausência literária pós aquela crônica de 2004 estivesse explícita em seu desiludido desfecho ou algo assim. Não sei. O que sei é que o meu amigo estava certo: eu não escrevia desde então.
Refletindo, pensei em grandes escritores e em toda a vasta produção literária de seus punhos e pensamentos... Quando pararam? Ou melhor: paravam e voltavam? Sim, porque a vida é um ir-e-vir infinito, eu sei. Mas o que os meus rabiscos tinham a ver com isso? Muitas coisas se passaram em minha cabeça. Armando não sabia, mas suas palavras produziam em mim um constante martelar - até agora o ouço.
Sentei-me, hoje, ao fraco sol das nove horas, como de costume. Uma terça-feira comum e o mundo a girar. Se meu caderninho falasse, talvez, olhar-me-ia com doce espanto, a perguntar: ''Quanto tempo, hein?'' Não. Ele não pode falar e nem me ouvir, mas acolhe os meus delírios e isso já está de bom tamanho.
Acho que era isso. Aquele bate-papo me tirou do sossego literário, e me jogou novamente na turba corriqueira das palavras. Como diria o poeta Murilo Mendes, em seu Choro do poeta atual, ''nunca mais tenho sossego''.
RITA MARTELINI é professora de inglês e português em Londrina


