CRÔNICA - Poesia rima com tecnologia?
Lamento do milho:
Meu nome era ''Milho Crioulo''
Eu oferecia autonomia.
Hoje sou o ''H721Bx42''
Estéril,
Mas, dou economia!
Em meio a tantas datas comemorativas, o dia 14 de março, o Dia Nacional da Poesia, corre o perigo de passar em branco. Para preencher o branco procuramos poeta aprovado ou poesia regrada. O receio de ser considerado excêntrico ou de ter que ''pagar o mico'' nos leva a afirmações como: ''não levo jeito, não tenho talento, não tenho tempo''.
Na melhor das hipóteses, para aparentar cultura, citamos ou recitamos o que poetas consagrados escreveram. Na realidade tecnológica, que exige uma sociedade cada vez mais mecânica, absorvida em produção e consumo, ser poeta destoa. O resultado é que num mundo cada vez mais desencantado, negamos nossa individualidade, o que coloca nossa sobrevivência em dúvida.
Conceitos abstratos do mundo tecnológico, como ''desenvolvimento sustentável'' e ''economia verde'' se oferecem para calar aqueles que instintivamente ainda sentem que algo não está indo bem. A intuição muitas vezes é mal vista, pois dificulta a condução da grande massa humana. Mas poesia e todas as outras artes poderiam constituir alternativas ''pé no chão'' diante dos enormes desafios contemporâneos.
Na poesia podemos descobrir liberdade de criação, de manifestação, de comunicação. Quem na vida real é segmentado, especialista, impotente, pela arte pode se tornar potente e expor ''seu entusiasmo criador''. A arte fortalece e une. As limitações de línguas, separações como normalidade, idade, instrução, cultura, economia, religião e raça conseguem ser superadas pela arte. A poesia, definida como ''entusiasmo criador'', pode ser expressa em qualquer espaço. A poesia não se encontra só no papel, está no próprio viver, na praça, na escola, no hospital, na prisão.
Redescobrir a poesia poderia nos levar a questionar a exclamação do mundo tecnológico, metodológico, mercadológico! Tudo lógico? Por que, por exemplo, uma semente de milho ''moderna'' é estéril? Por que há tanto desperdício de comida? Por que a tecnologia torna o homem cada vez mais dependente? Por que a cidade é colocada como ''a solução''? Por que as crianças não podem mais brincar na rua? Por que nossos filhos são obrigados a passar tanto tempo na escola? Por que ''meio ambiente'' não se entende com ''desenvolvimento''? Por que o mundo está tão calado?
Começar a dar opinião pessoal a essas e tantas outras dúvidas seria o início de um casamento promissor, uma rima de verdade, entre poesia e tecnologia.
Daniel Steidle é educador ambiental em Rolândia





