Ruídos urbanos ensurdeciam o pequeno morador de rua. O falatório dos estranhos, os passos rápidos dos apressados, a gritaria persuasiva dos vendedores aos poucos se tornavam a nova música ambiente de Pedro. Estava só. Estava nu. Estava rodeado por todos, mas ao mesmo tempo por ninguém. Não conhecia os rostos, nem os cheiros. Nada era familiar, apenas a rua e o medo. Sua nova casa era pública, sua privacidade também. Agora ele era visto pelos transeuntes, que apenas certificavam mais um mendigo na calçada.
Sua luta estava apenas no começo. A fome, o frio, a solidão eram seus novos monstros. Mas isso não era nada comparado às severas punições que recebia no orfanato. Para Pedro, esses novos monstros não eram uma questão de obstáculos substituídos, mas novos desafios para enfrentar com garra e fé. Pedro tinha esperança em seu coração, embora presenciasse inúmeros fatos que contradiziam sua tese. Sua imaginação era rica, sua intenção era boa. O garoto não hesitava e a derrota não lhe pertencia. Ser derrotado era perder uma causa e abandoná-la de prontidão. Pedro não era derrotado. Sua luta era vencida momentaneamente, porém enfrentada de novo só que com mais força. Pedro era persistente!
O sol abaixava e com ele as cores se dissipavam. Os prédios perdiam suas características alegres, as pessoas se recolhiam, as viva tonalidades se escureciam. A noite chegava sem avisar: lentamente severa e levemente abrupta. A estrela maior se tornou branca, se escondeu no outro extremo da terra. Levou-se a clara segurança do dia, chegou-se a perturbadora noite com seus piscas-piscas deslumbrantes e misteriosos. Junto do escuro, o vento esfriava-se, se tornava forte! Pedro não tinha cobertor.
O novo morador de rua passava frio e fome. Encolhido, cantava baixinho para espantar seu terrível inimigo. O queixo não parava de tremer. As mãos também. O breu tomava seu amplo espaço. A escuridão tem o medo como seu amante. Pedro tinha só as estrelas para observá-lo. Não tinha ninguém naquela rua. Deitou na calçada e começou a imaginar uma cama quente e alguém para contar história ou apenas passar as mãos em seus cabelos. Começou a alimentar esse pensamento a ponto de se transportar naquele mundo irreal verdadeiro. Pedro já não sentia frio, nem medo. Pedro adormecia.

Bruno Petri é estudante em Ibiporã

Crônica é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana
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