CRÔNICA - Papo com o travesseiro
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 17 de junho de 2008
Fábio Castaldelli 
Antes de dormir, costumo estabelecer uma relação de diálogo com o meu travesseiro. Assuntos amorosos, profissionais, acadêmicos, ou de qualquer outra ordem, são debatidos aos sussurros, para não incomodar as paredes, janela e outros objetos de meu quarto. Bom conselheiro, aliás, é meu travesseiro. Já ajudou a me livrar de cada uma...
Foi em uma dessas conversas que cheguei, ou melhor, chegamos a uma pertinente conclusão: no dia da distribuição dos dons, eu passei longe (muito longe) de duas filas, a da dança e a da caligrafia.
Verdade! Não sei dançar, nunca soube. Minhas pernas são desobedientes, meu quadril é rijo feito uma rocha e meu ritmo segue um compasso próprio. Até gostaria de aproveitar esse momento para pedir desculpas às garotas que pisoteei em algumas tentativas importunas.
Confesso que não conseguir realizar um ''dois pra lá, dois pra cá'', o ritmo mais primitivo que existe, às vezes me incomoda, até porque sei que minha Marília (que nada tem a ver com a de Dirceu) gosta destas danças. Mas tudo bem, não é nada pra se desesperar. Há outras maneiras de compensar minha arritmia, e sinceramente (que não me levem a mal os dançarinos e adeptos dessa prática), acredito que dançar é uma maneira bem estranha de se expressar.
Já no que diz respeito à caligrafia, o problema é mais grave. Devo estar sendo castigado e repreendido pelas bobagens que andei escrevendo nos últimos tempos. Só pode ser. A cada dia, minha letra fica mais ''garranchada'', epigráfica, indigna de qualquer elogio, seja cursiva, de forma, maiúscula ou minúscula.
Escrevo tão horrendamente, e digo isso com um pesar que vocês nem imaginam, que minhas pobres letrinhas não passam de caricaturas do que seriam letras de verdade. Sempre evitei as cartas.
Não sei se meus tendões e articulações se atrofiaram devido ao vício e comodidade da digitação. Mas é uma hipótese que não deve ser descartada. Como é que um ''R'' pode parecer com um ''S'', um ''J'' com um ''I'', um ''G'' com um ''J'', e um ''H'' com nenhuma das 26 letras do nosso alfabeto?, pergunto-me. Também me pergunta o travesseiro. Não faço a mínima idéia.
Sempre fui taxado de desorganizado e de descuidado, só por pedir emprestada uma caneta por dia. Ocorre que depois de algumas horas de uso, elas simplesmente desaparecem. Coitada da minha amiga Gisele... Foram tantas canetas surrupiadas... Não, eu não perco as canetas. Elas é que fogem de mim, envergonhadas por serem tão maltratadas e terem suas tintas, aquilo que possuem de mais valioso, tão mal aproveitadas.
Sorte sua leitor, e também minha (mais minha do que sua), dispormos do computador, onde a ''Times New Roman'' se encarrega de traduzir as bobagens que invento.
Mas enquanto minha letra não melhora, e tudo indica que não vai melhorar mesmo, prefiro acreditar no que dizem os filósofos: ''É nas piores caligrafias, que estão os melhores conteúdos''. Tudo bem, eu sei, nenhum filósofo disse isso. Mas poderiam ter dito.
Para desencargo de consciência, amanhã vou até a vendinha perto de onde trabalho e comprarei um lindo caderno de caligrafia. Porém duas coisas já estão decididas. Primeira: não vou parar de escrever, mesmo que isso agrida aos olhos e os manuais da boa caligrafia. Segunda: só vou tentar dançar novamente quando for estritamente, indispensavelmente, surpreendentemente necessário.
Agora, me dêem licença, tenho uma conversa a terminar... E você meu travesseiro? Como foi o seu dia?
FÁBIO CASTALDELLI é estudante de Jornalismo


