Dizem que o sonho de todo homem é ter um filho. Victor, advogado, homem ético e conservador. Autodidata dos clássicos da literatura, da filosofia e de conhecimentos esotéricos, aspirava por um filho. Já era pai de três lindas meninas, mas faltava o ''garotão''. E ele veio. Seu nome: Eduardo. Após o nascimento, o pai permanecia por horas ao lado do bebê, apreciando como se houvesse encontrado Deus. Ao mesmo tempo, fazia, mentalmente, planos para o novo herdeiro: transmitir-lhe-ia sua experiência de vida; seus conhecimentos; seus valores, muitos deles conquistados a duras penas. Mostrar-lhe-ia o caminho do certo e do errado.
Eduardo foi crescendo e mesmo sem uma palavra do pai, ''sentia'', apesar de ser uma criança, as grandes expectativas que lhe eram depositadas, traduzidas em sua ingênua mente como ''cobranças''. Isso lhe gerou, no inconsciente, uma relação de ''proximidade-distante'' para com o pai, além do temor de não poder
''falhar''.
Mais tarde, já na adolescência, por mais que tentassem se aproximar, pai e filho, distanciavam-se cada vez mais, não dialogavam, não realizavam atividades em comum; enfim, ''não se davam''. Apesar disso, sempre se comunicaram pelos olhos, espelhos d'alma.
Na fase do vestibular, ao invés de tentar Direito, como aspirava o pai, Eduardo optou pelo curso de Moda, o que gerou revolta do pai, que chegou a bradar: ''com meu dinheiro, jamais!''
Eduardo, apesar de inseguro, seguiu sozinho para a Capital. Lutou contra seus temores e fraquezas. Valendo-se de sua determinação, conseguiu abrir, por si só, as portas necessárias para atingir seu objetivo. Após alguns anos na profissão de estilista, Eduardo - agora ''Eduard'' - já com fama internacional e plena independência financeira, ainda trazia consigo um sentimento de frustração, o que, por mais que tentasse, não conseguia compreendê-lo, tampouco superá-lo.
Depois de quase sete anos sem visitar a família, ''Eduard'' retornou às pressas para ver seu pai, o qual se encontrava doente e em estado terminal, com poucos dias de vida.
Ao entrar no quarto, quis o destino que ambos estivessem a sós. No início, as lágrimas de ''Eduard'' impediam o diálogo. O pai, tentando acalmá-lo, disse: ''eu ainda estou aqui para ouvi-lo''.
''Eduard'', na mais difícil confissão de sua vida, aos prantos, pediu perdão por não ser o filho esperado. Para sua surpresa, seu pai falou: ''Perdão? Por quê? Você é o melhor filho do mundo! Foi tudo que eu sempre sonhei! Honesto, autêntico como poucos, conquistou seu espaço com seu próprio esforço e, com seu talento, encanta multidões mundo a fora. Eu jamais teria feito igual. Você é forte, é virtuoso! Aprendi muito com você, tenha certeza disso! Você é especial, especialmente para mim!''
''Eduard'', então perguntou: ''pai, por que você nunca me disse isso? Foi o que eu sempre quis ouvir''. O pai, após pensar um pouco, disse: ''Não sei! Acho que é porque somos pai e filho. Assim, certos sentimentos, expectativas, sonhos nem sempre se realizam da maneira como queremos ou compreendemos. Isso muitas vezes impede os pais de dizerem o quanto se orgulham de seus filhos e, também, o quanto os amam''. E finalizou: ''Eu consegui!''

JOSÉ RICARDO ALVAREZ VIANNA é Juiz de Direito em Londrina

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