CRÔNICA - Outono
As nuvens correm velozes no céu azul, desmanchando-se feito pinceladas brancas na água, mudando de forma, atropelando-se em sua pressa, empurrando umas às outras, fundindo-se e logo separando-se feito amantes ciumentos...
Infinidade de passarinhos e borboletas emergem repentinamente por trás do muro descascado da casa abandonada e tomada pelo mato e a sujeira numa desordenada e barulhenta dança, cheia de brilho, cor e alegria...
O ar luminoso e transparente ofusca meus olhos, que estão sob a sombra protetora da grande árvore que impera, única, na rua deserta... O vento vem, sem avisar, e balança as roupas penduradas no varal, fazendo-as agitar-se e se contorcer como se lhes fizesse cócegas; revolve as folhagens, arrasta a poeira pelas calçadas e telhados, arranca acordes dos sinos pendurados nos galhos, bate portas, abre janelas desprevenidas, assobia nas frestas, parece mudar o plano de voo de insetos e pássaros feito uma criança caprichosa. Traz e leva vozes, cheiros, buzinas, música, latidos, gorjeios, os gemidos dos trilhos distantes que carregam o trem, dos caminhões que sofrem nestas rodovias esburacadas...
O céu acinzenta, fica denso e quieto, silencioso e, subitamente, desaba sobre nós feito uma mangueira que agua o jardim ressequido só para dar-lhe um alívio e uma prévia do inverno que se seguirá... Tudo em nossa volta é como um filme sem intervalos, então, mesmo estando atentos e completamente abertos e receptivos, às vezes não conseguimos abranger a totalidade do que está acontecendo ao nosso redor, pois é um emaranhado de movimento e som que nada detém, nada controla, nada desvia. Acontece no tempo e no espaço presente, é a realidade absoluta durante alguns segundos, porém, no instante seguinte já é uma outra coisa, e tudo isto acontece numa tal velocidade que quase não conseguimos acompanhar.
Cada estação e as suas paisagens, aromas e vozes é um turbilhão de milagres, de revelações, de lições e beleza inebriantes, e nós estamos bem no meio dele!... Certamente, todas elas são, cada uma ao seu modo, épocas abençoadas, sobretudo quando somos capazes de acompanhar e vivenciar as suas mudanças e revelações.
Paz Aldunate, escritora e professora em Ibiporã





