Anos setenta... Era mais de dez da noite num dia qualquer da semana. Na Rua Mato Grosso, esquina com a Rua Jacarezinho (atual JK), o som de um choro me chamou a atenção. Vi um menino de uns dez anos... chorava convulsivamente. Não resisti e fui indagar-lhe a razão do pranto:

– Fui roubado – disse-me soluçando - tomaram os salgadinhos que me sobraram e o dinheiro dos que vendi. Se eu chegar em casa sem nada vou apanhar muito outra uma vez. Enquanto falava mostrou-me a bandeja vazia e revirou os bolsos. Nada havia neles... A cena era comovente e meu primeiro impulso foi entregar-lhe uns trocados que tinha no bolso. Enxugando as lágrimas foi falando: - Meu pai é malvado! Me obriga a trabalhar, me bate e me deixa sem comer se eu chegar sem dinheiro. Senti muita raiva. Quanta maldade! - pensei.

Pedi-lhe o endereço para ir visitá-lo, saber se estava bem e levar-lhe mais alguma doação. Queria ajudar a família para evitar que o maltratassem novamente.

No dia seguinte, de ônibus... lá fui eu. O endereço me levou à periferia de Cambé. Desci e subi pela rua várias vezes e não encontrei o número da casa. Falei com os moradores, descrevi o garoto e sua atividade... Definitivamente ele não morava por lá. Durante anos me lembrei da cena e rezei pela vida daquela criança que tinha apenas seis anos a menos que eu.

O mundo foi girando... Vinte anos depois parei num sinal de trânsito... Passava das 22 horas. Ouvi um som de choro... Era de um garoto de uns dez anos. Baixei o vidro e perguntei o que estava acontecendo e a resposta me remeteu ao passado.

- Roubaram o dinheiro das cocadas que vendi e também as que sobraram. Fiquei sem nada. Vou apanhar muito quando chegar em casa. Meu pai é malvado...

Dei-lhe um dinheiro e pedi-lhe o endereço que mais uma vez não conferia. A mesma farsa era reproduzida em uma cidade localizada há mais de três mil quilômetros de Londrina e eu era vítima outra vez... Custei a compreender que a malícia humana migra atrás dos incautos.

Jair Queiroz é psicólogo em Londrina

Crônica é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores. Os textos, com no máximo 30 linhas, devem ser encaminhados com telefone de contato para [email protected].

mockup