O texto tem alguns anos; republico-o aqui em homenagem aos cinquenta anos da Adega União - viva Seu Zé!
Procurava algo feliz para escrever. Ou, pelo menos, agradável, suave. Um textinho leve, como manda o manual. Mas a observação do cotidiano só me revelava aspereza e peso. Como de pesado eu já me basto, desisti, por ora, de escrever - e fui beber. Não é parecido, mas ao menos os dois são verbos da segunda conjugação, na hora já servia para substituir.
O local escolhido foi a Adega.
Para os desprivilegiados que não a conhecem, a Adega União é um boteco antiquíssimo daqui de Londrina, fundado em 1958 por José Felix da Silva, o Seu Zé, um paraibano de Campina Grande que ainda está à frente da espelunca, invariavelmente bêbado desde sua inauguração. Em longevidade, por estas plagas, a Adega só perde para o sexagenário Bar Brasil - com a vantagem de nunca ter trocado de proprietário.
Chegando lá, tudo vazio. Ou quase: só Seu Zé, eterno no balcão, com seu copo de vinho. Na televisão, um jogo qualquer. Sentei-me junto a ele, pedi uma garrafa da casa, mas não fui puxando papo logo de cara - uma mistura de respeito e medo ante figura tão importante da história londrinense. Só quando uns dois ou três copos me inspiraram coragem, arrisquei uma perguntinha banal, se estava vendo o jogo, para que time torcia e tal.
- Xi rapaz, vai mudando. Antes tinha o Santos, eu gostava do Pelé, aquele era bom. Depois o Palmeiras ficou bem bom também, comecei a torcer pra ele. Depois o São Paulo ganhou tudo, mas depois só perdia, então não liguei mais pra ele. Mas agora tá ganhando de novo, então torço pro São Paulo. Ih, olha lá a TV, tá perdendo! Agora não sei pra quem torço não.
Deliciosa resposta, típica, Seu Zé ataca outra vez. Então ele não se importava em ser vira-casaca - em nossa pátria amada, termo dos mais desonrosos, mais ofensivo do que uma coisinha besta como ''mentiroso'' ou ''ladrão''. Lendo minha mente, completou:
- Menino, não dá pra perder tempo com quem faz sofrer. Tem que ir logo com quem tá bom.
Animado com tal grau de sabedoria popular, tentei pegá-lo desavisado, arriscando questão um pouquinho mais complexa - mas não para Seu Zé, para quem todas as respostas são simples, porque as perguntas são, no fundo, iguais.
- O sentido da vida? O sentido da vida vai de quando nasce, até ficar menino, moço, homem, velho e morrer. Daí morre.
Gênio. Sabia que não me daria mais de três chances, então fiz um esforço para gastar bem o último trunfo. Pensei em perguntar se Capitu afinal traiu Bentinho, mas seria mundano demais. Que aflição! Difícil pensar pressionado, sabendo-se com pouco tempo. Vencido, murmurei para mim mesmo, entre dentes, se valia a pena se preocupar. Mas Seu Zé ouviu e, magnânimo, sufocou-me com seu autêntico repente nordestino:
- Quem se preocupa é porque não se ocupa; quando tem coisa pra fazer, não dá tempo de entristecer. E já que você tá tão preocupado, vamos saindo que tá na hora de fechar.
Não sei se me salvou a crônica, mas me salvou o dia.

ANDRÉ SIMÕES é jornalista

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