CRÔNICA - O que mudou
Sempre tive ojeriza a velórios. Muitas pessoas também sentem isso e podem me compreender. O cheiro das velas queima minhas narinas, e o das flores, então? Parece que impregna minhas roupas, meu corpo, asfixia meu pensamento com o negro perfume da morte. Nunca soube o que dizer, o que podia confortar alguém que experimentava uma perda. Passar uma noite em claro, para mim algo impraticável até... até que tudo mudou e em todos os sentidos.
Pela primeira vez (sempre há uma primeira vez para tudo) perdi uma pessoa do meu convívio, não diário, mas do meu núcleo familiar mais próximo. Experimentei, na dor, uma série de percepções e de sensações que me eram desconhecidas até então.
Percebi que muitas pessoas que já passaram por isso têm palavras de conforto: ''Isso passa'', e de desânimo: ''Amanhã vai ser pior'' e vem aquele medo do amanhã, já que é impossível pensar numa dor pior do que aquela que se está sentindo (ainda em estado de choque, é claro). Essa experiência me mostrou que a simples presença de alguém é tão ou mais reconfortante que qualquer palavra bem-intencionada.
Ah, percebi que existem velas que se consomem sem lançar aquele cheiro de morte no ar. Isso já foi um alívio. E as flores, só agora atentei para o fato de que exalam aquele perfume funéreo após algumas horas, ou melhor, quando começam a murchar. Não fosse esse perfume, o ambiente ficaria mais leve para se contrapor ao coração pesado de dor. E a noite? Interminável, para ser mais exata. Mas cheia de surpresas: olhos abertos num gesto solidário, olhos lacrimejantes mergulhados em sua dor. Todos bem abertos e firmes. Solitários heróis na noite!
E, paradoxalmente, quando tudo parece estar prestes a terminar, é aí a hora de recomeçar. (E reaprender a viver sem ela, nossa alegre Cláudia.)
Irene Gomes Martins é professora em Rolândia





