Nem sempre as coisas andam bem. Em momentos de dificuldades econômicas há aqueles que acham maneiras alternativas de vender seus serviços. Dema veio para Londrina em meados da década de 70 do século 20. A cidade recém completara quatro décadas de fundação. Entre os anos 40 e 50, a cidade criou fama de um novo Eldorado. Com base no ouro verde, o café, Londrina tornou-se rapidamente um centro econômico no norte do Paraná.
A riqueza, vinda principalmente da agricultura, atraiu muita gente. Esse movimento continuou pelos anos 60 e 70. Londrina, como acontece com as regiões que se desenvolvem rapidamente, estimulou também o comércio do sexo. Nos anos 50 ficou famosa pelo grande movimento em seu pequeno aeroporto. Nos finais de semana, os voos da Real traziam, além de passageiros em viagens de negócios ou passeio, mulheres que vinham de São Paulo e Rio de Janeiro para se prostituirem na zona local. Algumas acabaram ficando por aqui, mas a maioria ia embora na segunda-feira. Assim, nas imediações do Estádio Vitorino Gonçalves Dias foi surgindo a zona de Londrina.
Dema veio do interior de São Paulo com esperança de tempos melhores. No começo foi difícil, mas aos poucos foi ganhando reputação junto aos dentistas da cidade. Passou a ser conhecido na cidade. Jovem e solteiro, naturalmente, sentia as premências do sexo. Aos finais de semana, ia se aliviar em uma das inúmeras boates. Certa vez fez um programa com a Maria Polaca. Não pôde deixar de notar que ela estava com muitas falhas na arcada dentária. Maria Polaca ria fácil e arreganhava a boca. Dema viu os dentes que faltavam.
Naqueles dias, andava curto de grana. Teve uma ideia e propôs para a Maria Polaca uma permuta. Faria próteses para melhorar sua dentição e ela, em troca, lhe prestaria os serviços de sexo. Ela topou. Dema indicou um jovem dentista para Maria Polaca. Ele fez as próteses e Maria Polaca pagou em serviços. Uma permuta que deixou ambos satisfeitos. Maria Polaca contou para as colegas. O serviço de Dema aumentou bastante. Suas idas à zona também. Nunca mais pagou em dinheiro. Só na base da permuta. Dizem que seu amigo dentista passou a fazer o mesmo. Isso eu não posso confirmar. A história de Dema ouvi dele mesmo. Outro dia reclamou que, nesses tempos modernos, com o fechamento da zona, não há mais permutas. Se bem que ele já não anda com essa corda toda.

Fernando Gimenez é londrinense e professor em Curitiba

Crônica é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores. Os textos, com no máximo 30 linhas, devem ser encaminhados com telefone de contato para [email protected].

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